A L M A D I N A
O Q U R B ÁN
Por: Sheikh Aminuddin Mohamad
Designa-se “Qurbán” o sacrifício de um animal quadrúpede por ocasião da festa do Eid-Ul-Ad’há. Tal ritual tem lugar nos dias 10, 11 e 12 de Dhul-Hidja, décimo segundo mês do calendário lunar. O início deste ritual tem lugar logo a seguir ao Swalaat (oração) do Eid, estendendo-se até ao pôr-do-sol do dia 12 (este ano será nos dias 27, 28 e 29 de Maio).
Embora a sua prática seja permitida à noite, tal não é aconselhável. O melhor dia para a prática do Qurbán é o dia de Eid (dia 27), devendo obrigatoriamente ser feito apenas depois da oração, pois se for feito antes perde a sua validade.
De acordo com a interpretação de um dos quatro mais proeminentes Imam’s, (Abu-Hanifa), o Qurbán só é obrigatório para o muçulmano (homem ou mulher) que possua nos três dias a ele consagrados, riqueza correspondente ao valor de Zakát.
Os animais que podem ser sacrificados são o camelo, o búfalo e o boi, (que podem ser partilhados por sete pessoas), o cabrito e o carneiro (para uma única pessoa, pois não são partilháveis). O boi deve ter mais de 2 anos de idade, o cabrito e o carneiro devem ter pelo menos 1 ano de idade.
É recomendável que se procure o animal destinado ao Qurbán alguns dias antes de sacrificá-lo, devendo ser bem tratado, pois destinando-se ao sacrifício para agradar a Deus, o animal deve ser do melhor que encontrarmos, pois não deve ser defeituoso (cego, zarolho, perneta, doente, com orelhas ou rabo cortados, chifre partido, etc.)
Ao viajante, o Qurbán não é obrigatório, mas caso regresse à casa antes do pôr-de-sol do dia 12 de Dhul-Hijja, então deverá fazê-lo se para tal dispuser de meios materiais.
É sempre melhor (sunnat) que seja a própria pessoa, i. é., o adquirente do animal, a proceder à sua degola caso tenha robustez física suficiente para o fazer, pois caso contrário, pode delegar a alguém, sendo porém recomendável que assista ao acto.
Aos menores não é obrigatório, mesmo que possuam riqueza.
No caso de o animal sacrificado ser de grande porte (camelo, búfalo ou boi) a divisão pelo grupo de sete pessoas deve ser feita por igual, em função do peso e não por estimativa. A porção de carne que couber a cada integrante do grupo pode ficar na totalidade na sua posse, pode doá-la na totalidade ou pode dividi-la em três partes iguais, sendo uma para os pobres, outra para os familiares e amigos, retendo a restante para si mesmo. O mesmo critério é aplicável caso o animal sacrificado seja de pequeno porte (cabrito ou carneiro).
Considerando a emergência em que algumas províncias do País se encontram, pois milhares de pessoas perderam quase a totalidade dos já parcos bens que possuíam, sem dúvidas o melhor acto de momento é mitigar a fome destes sem-nada. Portanto, doar a totalidade da carne aos pobres e necessitados afigura-se sendo a melhor opção.
Ainda de acordo com a interpretação do Imam Abu Hanifa, é permitido doar a carne de Qurbán aos não-muçulmanos.
A intenção de Qurbán não deve ser apenas o consumo da carne, pois se assim for o acto é inválido. Perde igualmente a sua validade se a carne for vendida ou distribuida aos empregados como forma de compensar o seu labor.
Se alguém tenciona fazer Qurbán adquirindo um animal, mas por qualquer razão não conseguir fazê-lo nos três dias prescritos, então deve num acto de caridade doar o animal aos pobres.
Segundo o Imam Shafei, se alguém adquirir um animal para o Qurbán e o mesmo se perder, for roubado ou devorado por algum animal feroz, a aquisição de um outro animal para o substituir não é obrigatória. É sunnat para quem tenciona fazer Qurbán abster-se de cortar as unhas, cabelo ou pelos do seu corpo desde o primeiro dia do mês de Dhul-Hidja até ao dia da degola do animal. Diz ainda o Imam Shafei que não é permitido fazer o Qurbán da parte de uma pessoa viva, sem a sua autorização. E quanto ao defunto, só é permitido se este tiver deixado dinheiro e um testamento para o efeito. Neste caso é obrigatório doar a totalidade da carne aos pobres.
Este ritual de Qurbán é de tão grande importância, que o Profeta (S.A.W.) diz: ” Esse, que dispondo de meios não fizer o Qurbán, que não se aproxime do local de Swalaat de Eid”.Veja-se a gravidade da negligência na observância do Qurbán, a ponto de o Profeta (S.A.W) querer distanciar-se desse tipo de gente.
Apelo a todos os muçulmanos com posses, que cumpram com este ritual, e que distribuam aos pobres e necessitados a carne dos animais abatidos. Lembrem-se daqueles que neste momente de crise estão angustiados, sem nada para vestir e sem nada para comer.
É esta a única forma de perpetuar o espirito de sacrificio demonstrado por Abraão quando lhe foi ordenado por Deus que sacrificasse o seu unico filho, Ismael.
Não devemos tomar isto como um ritual pesado, pois muitos muçulmanos, e não só, degolam animais obedecendo à recomendação de curandeiros para pretensamente agradar a santos e a espíritos. Outros ainda degolam generosamente animais de médio ou grande porte para comemorar aniversários, não raras vezes regados com bebidas alcoólicas, com alguma devassidão à mistura.
O muçulmano deve, muito particularmente neste momento em que o desconforto e a angústia atingiram milhares de lares de irmãos moçambicanos um pouco por todo o País, mostrar-se mais generoso, fazendo Qurbán, pois se de um lado vai agradar a Deus, de outro vai estender o seu braço em solidariedade para com os infortunados.