Economia moçambicana deve passar das potencialidades para as realizações

O presidente do Conselho Executivo da Fundação para a Competitividade Empresarial (FUNDEC), Agostinho Vuma, defende que Moçambique deve transformar as suas potencialidades económicas em resultados concretos, capazes de gerar emprego, aumentar a produção nacional e reduzir a dependência das importações.
Para o dirigente, a economia moçambicana precisa urgentemente de um «antibiótico» que permita ultrapassar os constrangimentos estruturais que limitam o crescimento. Vuma considera que o Governo e o sector privado devem apostar estrategicamente na inteligência artificial e na inovação tecnológica, como parte do caminho para alcançar a independência económica nacional.
Moçambique continua a enfrentar desafios em sectores fundamentais, nomeadamente na produção de alimentos, na exploração dos recursos naturais e no desenvolvimento tecnológico. Estas limitações contribuem para a dependência de produtos importados para abastecer o mercado nacional.
Segundo Vuma, a FUNDEC nasceu da convicção de que o país não poderá alcançar uma verdadeira independência económica enquanto não transformar o seu potencial em capacidade efectiva de produzir riqueza, gerar emprego e competir nos mercados.
A fundação pretende constituir uma plataforma independente de reflexão, investigação económica, diálogo institucional e promoção da competitividade empresarial.
«A preocupação não é apenas saber quanto cresce a economia, mas compreender quem beneficia desse crescimento, quantos empregos são criados, que oportunidades surgem para os jovens e que capacidade têm as empresas nacionais de participar na produção da riqueza», afirmou.
Vuma esclareceu que a FUNDEC não pretende substituir o Governo nem competir com as associações empresariais existentes. A sua missão, explicou, consiste em acrescentar valor, produzir conhecimento e contribuir para que as decisões económicas sejam cada vez mais sustentadas em evidências.
«A FUNDEC nasceu para ajudar Moçambique a passar da economia das potencialidades para a economia das realizações», sublinhou.
Pequenas e médias empresas no centro das prioridades
Questionado sobre o público-alvo da fundação, Vuma indicou que a organização pretende trabalhar com empresas, investidores, instituições públicas, universidades, investigadores, jovens empreendedores e parceiros de desenvolvimento.
A fundação atribui particular atenção às micro, pequenas e médias empresas, por considerar que constituem uma componente fundamental do tecido empresarial moçambicano e possuem elevado potencial de criação de emprego.
A aproximação entre a academia e a economia real constitui outra prioridade. Para Vuma, um país que não consegue transformar conhecimento em produtividade continuará dependente de soluções concebidas fora das suas fronteiras.
O responsável pretende contribuir para que as decisões económicas sejam fundamentadas em conhecimento, os investimentos produzam valor e as oportunidades de desenvolvimento se traduzam em benefícios concretos para os cidadãos.
Financiamento e produtividade condicionam recuperação
Na avaliação de Agostinho Vuma, a economia moçambicana continua condicionada pelo elevado custo do financiamento, pela insuficiência de infra-estruturas, pela baixa produtividade, pela dependência das importações e pelas limitações da capacidade industrial.
O dirigente considera que estes factores dificultam a expansão das empresas e restringem a criação de emprego.
Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), citados na entrevista, indicam que o Indicador do Clima Económico (ICE) passou de 87,4, no segundo trimestre de 2026, para 87,8, no terceiro trimestre. A evolução interrompeu, segundo os dados apresentados, uma sequência de sete trimestres consecutivos de deterioração.
Apesar da melhoria, o indicador permaneceu abaixo da média histórica de 98,8.
«Estes números mostram que a confiança começa a recuperar, mas ainda precisamos de consolidar as condições necessárias para transformar expectativas positivas em investimentos concretos», afirmou.
Entre os principais obstáculos, Vuma destacou o acesso ao financiamento. Na sua perspectiva, os custos elevados do crédito levam as empresas a adiar investimentos, reduzir a produção e limitar a contratação de trabalhadores.
Por isso, defende que a recuperação económica não deve ser avaliada apenas pela evolução do Produto Interno Bruto (PIB). O investimento produtivo, o emprego, as exportações e o rendimento das famílias devem igualmente integrar a avaliação.
«O nosso desafio é fazer com que a recuperação económica se transforme em oportunidades sociais», declarou.
O dirigente advertiu ainda que a melhoria dos indicadores macroeconómicos não é suficiente quando as famílias continuam a enfrentar dificuldades para assegurar a alimentação e satisfazer outras necessidades básicas.
Agricultura, energia e turismo oferecem oportunidades
Ao abordar os sectores com maior potencial de investimento, Vuma destacou a agricultura, a energia, o turismo e a logística.
Na agricultura, identificou oportunidades na produção, conservação, transformação, embalagem, transporte e comercialização de alimentos. Na sua avaliação, o desenvolvimento de cadeias agro-industriais permitiria aumentar o valor acrescentado da produção nacional.
Uma tonelada de produtos agrícolas comercializada sem transformação gera menos valor do que a mesma produção integrada numa cadeia agro-industrial, que inclui processamento e outras actividades complementares.
No sector energético, os investimentos em gás natural, electricidade e energias renováveis poderão impulsionar a indústria, os serviços técnicos, a manutenção e a formação especializada.
O turismo constitui outra área com potencial de crescimento. Com aproximadamente 2.700 quilómetros de costa, além de património natural, histórico e cultural, Moçambique dispõe de recursos que, segundo Vuma, podem sustentar uma indústria turística mais competitiva.
«Precisamos de transformar esses recursos numa indústria turística competitiva, capaz de gerar receitas, emprego e desenvolvimento local», defendeu.
A logística também foi apontada como uma oportunidade estratégica. A localização geográfica de Moçambique permite servir mercados do interior da África Austral através dos corredores de Maputo, Beira e Nacala.
Vuma considera que o país pode consolidar-se como uma plataforma regional de transporte, armazenamento, distribuição e prestação de serviços industriais.
Conteúdo local deve beneficiar empresas nacionais
O responsável da FUNDEC considera que o conteúdo local deve assumir um papel central na dinamização da economia. Na sua perspectiva, os grandes investimentos precisam de criar oportunidades para as empresas nacionais através da aquisição de bens e serviços produzidos no país.
«Não basta exportarmos recursos naturais. Precisamos de desenvolver competências, empresas e tecnologias capazes de participar em toda a cadeia de valor», defendeu.
Para Vuma, a riqueza de Moçambique não deve ser avaliada apenas pelos recursos existentes no subsolo, mas também pela capacidade dos seus cidadãos de transformar esses recursos em produtos, serviços e actividades económicas geradoras de valor.
O dirigente entende que o desenvolvimento de fornecedores nacionais e a transferência de competências podem ampliar os benefícios dos grandes projectos para a economia.
Competitividade exige investimento e inovação
Sobre a capacidade das empresas moçambicanas para competir nos mercados nacionais e internacionais, Vuma considerou que existem oportunidades, mas que a sua concretização exige mudanças na organização e no funcionamento da economia.
«A competitividade nos mercados nacionais e internacionais não se decreta. Constrói-se através da produtividade, inovação, qualidade, eficiência e capacidade de resposta aos mercados», afirmou.
O responsável observou que as empresas nacionais enfrentam custos elevados de energia, financiamento, transporte e matérias-primas, factores que dificultam a concorrência em condições de igualdade com empresas instaladas em economias mais industrializadas.
Por essa razão, defendeu que a competitividade não deve ser encarada apenas como uma responsabilidade individual das empresas.
Entre as medidas que considera prioritárias estão a aceleração da certificação de produtos, a modernização tecnológica, a formação de gestores e trabalhadores e a integração das pequenas empresas nas cadeias regionais de valor.
A FUNDEC pretende igualmente promover iniciativas de reconhecimento das empresas mais competitivas do país, valorizando boas práticas de gestão e produção.
«A competitividade não significa apenas vender mais barato. Significa produzir melhor, inovar continuamente e conquistar a confiança dos mercados», explicou.
Vuma defende que Moçambique deve deixar de se afirmar predominantemente como mercado consumidor e reforçar a sua capacidade de produção e exportação.
Estado, empresas e universidades devem partilhar responsabilidades
Na conclusão, o presidente do Conselho Executivo da FUNDEC defendeu uma actuação coordenada entre o Estado, o sector privado, as universidades e a sociedade.
Ao Estado cabe criar condições favoráveis ao investimento. As empresas devem assumir riscos, inovar e produzir. As universidades, por sua vez, devem gerar conhecimento aplicável aos desafios económicos do país.
Os cidadãos também devem dispor de oportunidades para participar na criação e distribuição da riqueza nacional.
Para Vuma, a transformação da economia moçambicana exige que o potencial existente seja acompanhado por investimento produtivo, inovação, desenvolvimento de competências e políticas orientadas para resultados concretos.
A passagem da economia das potencialidades para a economia das realizações dependerá, assim, da capacidade de converter recursos naturais, conhecimento e iniciativa empresarial em produção, emprego e melhoria das condições de vida da população. (Elton Dinis)