Estigma e tabus sobre a gestão menstrual prevalecem na sociedade

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As meninas precisam de preparação adequada para aprender a fazer uma boa gestão menstrual, uma temática que ainda continua a ser um tabu em muitos espaços da sociedade moçambicana. Mesmo nos tempos actuais, muitas mães evitam conversar abertamente com as filhas quando estas entram no ciclo menstrual, preferindo transferir essa responsabilidade para terceiros.

A higiene menstrual é vista sob diferentes perspectivas e considerada um marco importante na vida de uma rapariga. Porém, isso não significa que, ao iniciar a menstruação, a jovem esteja automaticamente preparada para o casamento.

Para a psicóloga Eugénia Alberto, a gestão menstrual exige aprendizagem contínua. Segundo a especialista, ainda existem dificuldades em abordar temas ligados ao corpo humano e à educação sexual, tanto no ambiente familiar como escolar.

“Alguns professores não conseguem expressar-se, no seio familiar é tabu e no meio escolar também é tabu. Então, onde é que as meninas vão aprender a gestão menstrual?”, questiona.

Por esta razão, o dia 28 de Maio foi instituído como Dia Mundial da Higiene Menstrual, com o objectivo de sensibilizar a sociedade, sobretudo no contexto escolar. No entanto, para muitas meninas, o acesso à informação continua a ser um grande desafio.

Segundo a psicóloga, ultrapassar o tabu é possível, mas exige tempo e mudança de mentalidades.

“Os pais são limitados ou não têm capacidade de falar destas coisas como elas são, sem tabu. A gestão menstrual não pode ser apenas responsabilidade do sector da saúde, da igreja ou da educação. Todos são chamados a desmistificar o tabu”, defende.

Impacto da falta de informação sobre higiene menstrual

A psicóloga alerta que a falta de informação tem impactos directos na vida das raparigas. Em muitos casos, quando estão menstruadas, são impedidas de brincar ou de conviver com rapazes devido a crenças culturais.

Além disso, se o ciclo menstrual coincidir com um dia de avaliação escolar e a rapariga faltar à escola, isso reflecte-se negativamente no seu aproveitamento.

Nesta fase, a especialista recomenda a suplementação de ferro, devido à perda de sangue durante o ciclo menstrual, bem como uma alimentação equilibrada. No entanto, muitas raparigas têm receio ou vergonha de tomar esses suplementos.

“Há muitas crenças, como a de que a menina não pode cozinhar para o pai ou colocar sal na comida durante o período menstrual. Hoje, com a correria do dia-a-dia, muitas famílias deixam as meninas sem orientação, o que reforça ainda mais os tabus”, explicou.

Outro factor preocupante é a falta de informação adequada, que pode levar a comportamentos de risco e a gravidezes precoces e indesejadas.

A psicóloga alerta ainda para os riscos de má higiene durante o ciclo menstrual, sublinhando que a falta de cuidados pode provocar infecções.

“Não se deve permanecer com o penso higiénico por mais de oito horas. Deve ser feita a troca regular e a higiene adequada, caso contrário podem surgir bactérias e problemas de saúde”, afirmou.

Segundo Eugénia Alberto, nas escolas, muitas raparigas enfrentam dificuldades devido à falta de água e de condições adequadas nas casas de banho, o que leva, em alguns casos, ao abandono das aulas.

“Uma escola que não tem água e condições sanitárias adequadas não consegue responder às necessidades das alunas”, sublinhou.

A especialista recomenda ainda que as meninas tomem banho regularmente durante o período menstrual, pelo menos duas a três vezes ao dia, especialmente nos primeiros dias, e que lavem sempre as mãos antes e depois da troca do penso higiénico.

No que diz respeito à eliminação dos pensos usados, recomenda-se que sejam embrulhados em papel higiénico ou guardanapo antes de serem descartados, evitando exposição e maus cheiros.

Existem também pensos reutilizáveis em tecido, que podem ser lavados, secos ao sol e engomados, garantindo maior sustentabilidade e higiene.

A alimentação rica em ferro, como verduras, feijão e frutas, como laranja, é igualmente recomendada para prevenir casos de anemia.

“A higiene das nossas meninas deixa a desejar”, lamenta a psicóloga.

Escola e papel na sensibilização

De referir que a menstruação é um processo biológico natural e inevitável, mas continua envolta em estigmas, silêncios e mitos. Esta realidade contribui para faltas às aulas, baixo rendimento escolar, exclusão de actividades e até abandono precoce da escola.

Por sua vez, o director da Escola Secundária da Zona Verde, no Município da Matola, Custódio Simões, defende que o diálogo aberto ajuda a quebrar tabus e a promover conhecimento entre as raparigas.

Segundo o responsável, a escola dispõe de casas de banho que devem garantir conforto e dignidade às alunas, mas reconhece problemas decorrentes do mau uso das instalações.

“Não é possível sentir-se bem quando os utilizadores não cuidam das casas de banho e deixam essa responsabilidade para terceiros”, afirmou.

Durante uma visita da equipa de reportagem, foi possível observar trabalhos de substituição de tubagem danificada devido ao mau uso das instalações, incluindo o descarte inadequado de pensos higiénicos.

“Foram encontrados não só pensos, mas também outros objectos como garrafas. Isso provoca entupimentos e maus cheiros”, explicou.

O director acrescenta que a escola tem desenvolvido acções de sensibilização através do programa Geração Biz e em parceria com o Centro de Saúde de Dhlanvela, que realiza palestras sobre saúde e higiene feminina.

Para Custódio Simões, a mudança de comportamento deve começar em casa.

“Se não houver mudança em casa, nada será diferente na escola. Muitas vezes, as crianças aprendem comportamentos que não são reforçados pelos encarregados de educação”, afirmou.

O responsável defende ainda que os directores de turma devem abordar estes temas de forma aberta nas reuniões com encarregados de educação, para reforçar a educação sobre higiene e comportamento. (CRIZALDA VILANCULOS)