Insurgência em Cabo Delgado pode ser financiada por ouro ilegal da África Austral, alerta estudo

A insurgência armada em Cabo Delgado continua a representar a principal ameaça à segurança da África Austral e poderá beneficiar, no futuro, dos lucros provenientes da mineração ilegal de ouro em países vizinhos, particularmente na Zâmbia, caso os governos da região não reforcem os mecanismos de controlo, vigilância e cooperação transfronteiriça.
O alerta consta de uma análise elaborada pelo investigador Charles Moyo, pesquisador sénior e gestor regional de Políticas e Pesquisa do Centro da África Austral para Mediação e Prevenção do Extremismo, que estabelece uma ligação entre a exploração ilegal de ouro, os fluxos financeiros ilícitos e o potencial financiamento de grupos extremistas que actuam no norte de Moçambique.
Segundo o estudo, embora a África Austral seja considerada uma das regiões mais estáveis do continente africano, enfrenta um conjunto crescente de ameaças à segurança, entre elas a insurgência em Cabo Delgado, a instabilidade política na República Democrática do Congo (RDC), a violência eleitoral e o aumento do extremismo violento.
O relatório identifica Moçambique como o principal epicentro da actividade extremista na região, advertindo que os grupos armados ligados ao autoproclamado Estado Islâmico permanecem operacionais, apesar das ofensivas militares conduzidas pelas Forças de Defesa e Segurança, pela Missão da SADC e pelas tropas ruandesas.
De acordo com o documento, a situação de segurança em Cabo Delgado permanece altamente volátil, caracterizada por ataques esporádicos, deslocamentos populacionais e tácticas de guerrilha adoptadas pelos insurgentes para evitar confrontos directos com as forças governamentais.
Dados citados pelo estudo indicam que, entre 23 de Fevereiro e 8 de Março de 2026, foram registados pelo menos cinco incidentes de violência política na província, provocando cerca de 30 mortes, incluindo vítimas civis.
Desde o início da insurgência, em Outubro de 2017, o conflito já provocou mais de 6.400 mortos, milhares de ataques armados e centenas de milhares de deslocados internos, tornando-se uma das mais graves crises humanitárias da África Austral.
Segundo Charles Moyo, apesar dos avanços militares registados nos últimos anos, os grupos extremistas continuam suficientemente móveis e organizados para manter operações de baixa intensidade e explorar novas fontes de financiamento.
A preocupação do investigador surge na sequência da corrida ao ouro registada na Zâmbia durante 2025, sobretudo nas províncias de Lusaka e Noroeste, onde dezenas de milhares de garimpeiros ocuparam áreas de exploração artesanal após a descoberta de importantes jazidas.
Em Janeiro deste ano, o comandante do Exército zambiano, tenente-general Geoffrey Choongo Zyeele, alertou que vários garimpeiros ilegais actuavam armados, sem documentação e envolvidos em actividades como tráfico de droga e outras redes criminosas.
Para o investigador, caso a exploração ilegal continue sem controlo, existe o risco de grupos extremistas aproveitarem esses circuitos clandestinos para financiar operações terroristas em Moçambique, repetindo modelos já observados em países da África Ocidental, como Mali e Burkina Faso.
“O ouro poderá transformar-se numa importante fonte de financiamento para organizações extremistas caso os Estados não actuem preventivamente”, alerta o documento.
A análise refere que os grupos armados em Cabo Delgado já demonstraram capacidade para explorar recursos naturais existentes nas zonas sob a sua influência.
Segundo o relatório, além de recorrerem às reivindicações sociais relacionadas com a exploração dos recursos naturais, os insurgentes têm procurado integrar actividades ligadas à mineração de ouro, rubis e grafite nas suas estratégias de financiamento.
O estudo sublinha que essa realidade reforça a necessidade de maior fiscalização sobre os sectores extractivos e sobre os fluxos financeiros associados ao comércio ilegal de minerais.
Além da insurgência em Moçambique, o documento recorda que a África Austral tem enfrentado outros focos de instabilidade nos últimos anos, incluindo protestos violentos na África do Sul e em Eswatini, crises políticas na República Democrática do Congo e no Lesoto, bem como episódios de violência eleitoral em diversos países.
Moçambique é igualmente referido como um dos casos mais preocupantes de violência pós-eleitoral, tendo os confrontos registados após as eleições gerais de 2024 provocado mais de 300 mortos, segundo dados citados pelo investigador.
Na avaliação de Charles Moyo, estes factores criam um ambiente propício à radicalização de jovens, ao crescimento do crime organizado e à expansão das redes extremistas.
Para evitar que a mineração ilegal se transforme numa nova fonte de financiamento do terrorismo, o investigador recomenda que os países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) reforcem a cooperação em matéria de segurança, intensifiquem a partilha de informações de inteligência e controlem melhor os movimentos migratórios nas zonas mineiras.
O estudo defende igualmente a formalização da mineração artesanal, o combate aos fluxos financeiros ilícitos, o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização e a criação de políticas que reduzam o desemprego, a pobreza e a exclusão social, factores frequentemente explorados por grupos extremistas para recrutar novos membros.
Segundo Charles Moyo, a estabilidade da África Austral dependerá cada vez mais da capacidade dos governos de impedir que os recursos minerais financiem redes terroristas e criminosas, preservando a segurança regional e evitando que conflitos como o de Cabo Delgado encontrem novas fontes de sustentação financeira.
Alega morte de cinco militares
Estado Islâmico reivindica ataque em Macomia
O grupo extremista Estado Islâmico reivindicou um alegado ataque contra militares moçambicanos no distrito de Macomia, província de Cabo Delgado, afirmando ter morto cinco membros das Forças de Defesa e Segurança (FDS) e capturado um sexto militar. Até ao momento, as autoridades moçambicanas não confirmaram a ocorrência do ataque nem o número de vítimas reivindicado pelos insurgentes.
A reivindicação foi divulgada através dos canais de propaganda do Estado Islâmico, que refere que a ofensiva ocorreu na segunda-feira, na floresta de Catupa, uma zona do distrito de Macomia onde se encontra uma importante base militar e que, ao longo dos últimos anos, tem sido palco de confrontos frequentes entre as FDS e grupos armados.
Segundo a mensagem difundida pela organização extremista, os combatentes utilizaram “diversos tipos de armas” durante o ataque, alegando que o confronto resultou na morte de cinco militares moçambicanos, na captura de um sexto elemento das FDS e na apreensão do respectivo armamento.
O distrito de Macomia permanece uma das áreas mais afectadas pela insurgência armada em Cabo Delgado. A sua posição geográfica, localizada entre Mocímboa da Praia, Quissanga e Palma, confere-lhe importância estratégica para as operações militares e para a movimentação dos grupos insurgentes.
A floresta de Catupa, mencionada na reivindicação, tem sido repetidamente referida em operações militares devido à presença de bases utilizadas pelos extremistas e pela sua densa cobertura vegetal, que dificulta o controlo permanente por parte das forças governamentais.
Nos últimos meses, as operações militares intensificaram-se naquela região, envolvendo efectivos moçambicanos e forças destacadas no âmbito da cooperação regional da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), bem como militares ruandeses destacados para apoiar o combate ao terrorismo.
Apesar dos sucessivos anúncios sobre a destruição de bases insurgentes, pequenos grupos armados continuam a realizar ataques de oportunidade, emboscadas e incursões contra posições militares e comunidades civis.
Mais de oito anos de conflito
A província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada desde 5 de Outubro de 2017, quando um grupo de homens armados atacou esquadras da Polícia da República de Moçambique no distrito de Mocímboa da Praia.
Desde então, o conflito expandiu-se para vários distritos da província, provocando milhares de mortes, a deslocação de centenas de milhares de pessoas e elevados prejuízos económicos e sociais.
Os ataques passaram a ser reivindicados pelo Estado Islâmico através da sua denominada Província da África Central, embora as autoridades moçambicanas utilizem habitualmente a designação Estado Islâmico em Moçambique para identificar o grupo.
Segundo dados divulgados pela organização Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), entre 1 e 14 de Junho deste ano foram registados 11 episódios de violência envolvendo grupos extremistas em Cabo Delgado, que resultaram em pelo menos oito mortos.
Os mesmos dados indicam que, desde o início da insurgência, foram contabilizados 2.408 eventos violentos, dos quais 2.224 envolveram grupos associados ao Estado Islâmico.
No mesmo período, o número acumulado de vítimas mortais atingiu 6.632 pessoas, entre civis, militares, insurgentes e outros intervenientes do conflito.
A reivindicação surge poucos dias depois de o Presidente da República, Daniel Chapo, anunciar a transferência do Comando do Teatro Operacional Norte da cidade de Pemba para o distrito de Mocímboa da Praia.
Durante uma visita de trabalho à província de Cabo Delgado, o Chefe do Estado explicou que a mudança pretende aproximar o comando militar das principais zonas de combate e reforçar a capacidade de resposta operacional.
Segundo Daniel Chapo, a nova localização permitirá uma coordenação mais eficiente das operações desenvolvidas nos distritos de Palma, Macomia, Quissanga e noutras áreas afectadas pela insurgência.
O Presidente reafirmou igualmente o compromisso do Governo em continuar a reforçar as capacidades das Forças de Defesa e Segurança, através de investimentos em infra-estruturas militares, equipamento, logística e formação.
Na mesma ocasião, Daniel Chapo defendeu que a evolução da situação de segurança em Cabo Delgado está a contribuir para o regresso dos grandes projectos de investimento ligados ao gás natural.
O Presidente recordou a retoma do projecto de gás natural liquefeito liderado pela TotalEnergies, a assinatura da decisão final de investimento do projecto Coral Norte e a expectativa de aprovação, ainda este ano, da decisão final de investimento do projecto liderado pela ExxonMobil.
Estes investimentos representam um dos principais pilares da estratégia de crescimento económico do Governo, cuja concretização depende da manutenção das condições de segurança na região.