O ódio é o pior inimigo da decência

O Campeonato do Mundo vai animando os amantes de futebol, como eu. Porém, há alguns aspectos importantes que merecem reflexão. A minha análise centra-se nos dois maiores astros do futebol moderno: Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.
A disputa pelo protagonismo entre ambos já dura há quase vinte anos. Algo semelhante nunca havia acontecido desde que o futebol existe. Messi representa um futebol mais refinado, artístico e elegante, elevando a um novo patamar a combinação entre espectáculo e eficácia. Cristiano Ronaldo, por sua vez, simboliza a explosão, a intensidade e uma extraordinária capacidade de adaptação, sem nunca perder o instinto decisivo que o caracteriza.
Os que têm mais ou menos a minha idade testemunharam, ao longo dos anos, jogadores extremamente talentosos e dotados de um futebol requintado. Era um futebol que fazia sonhar até durante o sono mais profundo. Nessa altura, o mais importante era o futebol em si e não os números. A questão não era saber quem marcava mais golos, mas quem encantava mais. O essencial era ver jogadores capazes de levantar estádios inteiros com um futebol bonito e artístico.
Quem não se lembra do dia em que Ronaldinho Gaúcho foi ovacionado no Santiago Bernabéu? Quem não se recorda de Jay-Jay Okocha a deslumbrar em Old Trafford e a deixar Sir Alex Ferguson sem as suas famosas pastilhas elásticas? Quem esquece Gheorghe Hagi a encantar o mundo com o seu talento? E quem não sente saudades de ver Zinedine Zidane, Luís Figo, Iván Zamorano, Daniel Ortega, Gabriel Batistuta, Sunday Oliseh, entre tantos outros, a jogar?
O futebol tinha um encanto que hoje parece cada vez mais raro. Não podemos julgar o passado com os critérios do presente.
Mas, voltando à ideia inicial, concentremo-nos em Messi e Ronaldo. O ódio que alguns nutrem por um ou por outro faz perder a decência, inclusive a pessoas que deveriam saber separar a rivalidade da realidade.
É muito triste ver a forma como muitos portugueses tratam a sua maior referência de todos os tempos. Cristiano Ronaldo está acima de qualquer outro português não apenas no futebol, mas também em termos de projeção internacional. Nas artes, na cultura, na política ou em qualquer outra área, poucos portugueses alcançaram a notoriedade global de CR7. Hoje, Portugal é amplamente reconhecido no mundo do futebol graças, em grande parte, à sua figura. Sem Ronaldo, o país dificilmente teria a mesma dimensão mediática no panorama futebolístico mundial.
É igualmente triste ouvir alguns jogadores e comentadores tratarem-no como apenas mais um elemento da equipa. Ronaldo não é um jogador qualquer. É uma figura especial, sobre quem recaem expectativas que ultrapassam as fronteiras do seu país.
Os portugueses poderiam aprender com a forma como a Argentina trata a sua maior estrela. O seleccionador argentino deixou isso bem claro desde o início da competição: Messi só seria substituído se ele próprio assim o desejasse. Mesmo limitado fisicamente, continuaria a ter lugar garantido no onze inicial. Trata-se de uma mensagem forte para todo o grupo. Como consequência, os restantes jogadores assumem publicamente que correm, lutam e estão dispostos a dar tudo pelo seu capitão e principal referência.
Já em Portugal, a chamada “geração de ouro” é frequentemente apresentada como argumento para relativizar a importância de Ronaldo. Mas que geração de ouro é essa? Portugal possui alguns jogadores de grande qualidade, como Vitinha, Nuno Mendes, João Neves e Bruno Fernandes. Contudo, muitos dos restantes atletas são frequentemente sobrevalorizados.
Esta selecção está longe de se comparar àquela que contava com Cristiano Ronaldo nos primeiros anos da sua carreira, Luís Figo, Ricardo Carvalho, Nuno Gomes, Simão Sabrosa, Rui Costa, Ricardo Quaresma, Costinha, Vítor Baía e tantos outros jogadores que marcaram uma época.
O futebol é feito de talento colectivo, mas também de figuras excepcionais. E Cristiano Ronaldo, goste-se ou não, pertence a essa categoria rara de atletas que transcendem o próprio desporto. Ignorar isso por rivalidade, inveja ou ressentimento é permitir que o ódio vença a decência.
Por Egídio Plácido, jornalista e jurista.