O Campeonato do Mundo vai animando os amantes de futebol, como eu. Porém, há alguns aspectos importantes que merecem reflexão. A minha análise centra-se nos dois maiores astros do futebol moderno: Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.
A disputa pelo protagonismo entre ambos já dura há quase vinte anos. Algo semelhante nunca havia acontecido desde que o futebol existe. Messi representa um futebol mais refinado, artístico e elegante, elevando a um novo patamar a combinação entre espectáculo e eficácia. Cristiano Ronaldo, por sua vez, simboliza a explosão, a intensidade e uma extraordinária capacidade de adaptação, sem nunca perder o instinto decisivo que o caracteriza.
Os que têm mais ou menos a minha idade testemunharam, ao longo dos anos, jogadores extremamente talentosos e dotados de um futebol requintado. Era um futebol que fazia sonhar até durante o sono mais profundo. Nessa altura, o mais importante era o futebol em si e não os números. A questão não era saber quem marcava mais golos, mas quem encantava mais. O essencial era ver jogadores capazes de levantar estádios inteiros com um futebol bonito e artístico.
Quem não se lembra do dia em que Ronaldinho Gaúcho foi ovacionado no Santiago Bernabéu? Quem não se recorda de Jay-Jay Okocha a deslumbrar em Old Trafford e a deixar Sir Alex Ferguson sem as suas famosas pastilhas elásticas? Quem esquece Gheorghe Hagi a encantar o mundo com o seu talento? E quem não sente saudades de ver Zinedine Zidane, Luís Figo, Iván Zamorano, Daniel Ortega, Gabriel Batistuta, Sunday Oliseh, entre tantos outros, a jogar?
O futebol tinha um encanto que hoje parece cada vez mais raro. Não podemos julgar o passado com os critérios do presente.
Mas, voltando à ideia inicial, concentremo-nos em Messi e Ronaldo. O ódio que alguns nutrem por um ou por outro faz perder a decência, inclusive a pessoas que deveriam saber separar a rivalidade da realidade.
É muito triste ver a forma como muitos portugueses tratam a sua maior referência de todos os tempos. Cristiano Ronaldo está acima de qualquer outro português não apenas no futebol, mas também em termos de projeção internacional. Nas artes, na cultura, na política ou em qualquer outra área, poucos portugueses alcançaram a notoriedade global de CR7. Hoje, Portugal é amplamente reconhecido no mundo do futebol graças, em grande parte, à sua figura. Sem Ronaldo, o país dificilmente teria a mesma dimensão mediática no panorama futebolístico mundial.
É igualmente triste ouvir alguns jogadores e comentadores tratarem-no como apenas mais um elemento da equipa. Ronaldo não é um jogador qualquer. É uma figura especial, sobre quem recaem expectativas que ultrapassam as fronteiras do seu país.
Os portugueses poderiam aprender com a forma como a Argentina trata a sua maior estrela. O seleccionador argentino deixou isso bem claro desde o início da competição: Messi só seria substituído se ele próprio assim o desejasse. Mesmo limitado fisicamente, continuaria a ter lugar garantido no onze inicial. Trata-se de uma mensagem forte para todo o grupo. Como consequência, os restantes jogadores assumem publicamente que correm, lutam e estão dispostos a dar tudo pelo seu capitão e principal referência.
Já em Portugal, a chamada “geração de ouro” é frequentemente apresentada como argumento para relativizar a importância de Ronaldo. Mas que geração de ouro é essa? Portugal possui alguns jogadores de grande qualidade, como Vitinha, Nuno Mendes, João Neves e Bruno Fernandes. Contudo, muitos dos restantes atletas são frequentemente sobrevalorizados.
Esta selecção está longe de se comparar àquela que contava com Cristiano Ronaldo nos primeiros anos da sua carreira, Luís Figo, Ricardo Carvalho, Nuno Gomes, Simão Sabrosa, Rui Costa, Ricardo Quaresma, Costinha, Vítor Baía e tantos outros jogadores que marcaram uma época.
O futebol é feito de talento colectivo, mas também de figuras excepcionais. E Cristiano Ronaldo, goste-se ou não, pertence a essa categoria rara de atletas que transcendem o próprio desporto. Ignorar isso por rivalidade, inveja ou ressentimento é permitir que o ódio vença a decência.
Por Egídio Plácido, jornalista e jurista.
Editorial
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written by Egidio Cossa | 22 de Junho, 2026
A xenofobia na África do Sul já não pode ser tratada como um incidente passageiro
A morte de cidadãos moçambicanos na mais recente onda de violência contra estrangeiros na África do Sul volta a colocar uma questão incómoda no centro do debate regional: quantas vidas terão ainda de ser perdidas para que as autoridades sul-africanas enfrentem o problema da xenofobia com a seriedade que ele exige?
As imagens de barracas incendiadas, famílias em fuga e cidadãos africanos aterrorizados não são novas. Repetem-se há quase duas décadas. Em 2008, o mundo assistiu horrorizado aos primeiros grandes ataques xenófobos na África do Sul democrática. Desde então, seguiram-se novos episódios em 2015, 2019 e em diversos momentos posteriores. As vítimas mudam de nome, as localidades mudam de província, mas o padrão mantém-se assustadoramente semelhante.
Desta vez, as vítimas incluem cidadãos moçambicanos que procuravam na África do Sul aquilo que milhões de pessoas procuram todos os dias: trabalho, segurança económica e melhores condições de vida para as suas famílias.
É verdade que o Presidente Cyril Ramaphosa condenou a violência e apelou à calma. As suas declarações são importantes e merecem registo. Contudo, a questão que se impõe é outra: por que razão a xenofobia continua a reaparecer ciclicamente apesar de anos de promessas, discursos e compromissos políticos?
A realidade é que a África do Sul falhou em erradicar um fenómeno que se tornou recorrente. A repetição dos ataques demonstra que as respostas adoptadas ao longo dos anos foram insuficientes para proteger milhares de estrangeiros que vivem, trabalham e contribuem para a economia daquele país.
Sempre que ocorre um novo surto de violência, as autoridades condenam os acontecimentos, reforçam temporariamente o policiamento e prometem investigações. Mas, terminado o ciclo mediático, as causas profundas permanecem e o sentimento anti-imigrante continua a encontrar espaço para crescer.
Nos últimos meses, grupos organizados voltaram a realizar campanhas públicas contra estrangeiros, estabeleceram prazos para a saída de imigrantes e difundiram mensagens de hostilidade em várias comunidades. O simples facto de tais ameaças terem circulado abertamente durante semanas deveria ter sido suficiente para justificar uma intervenção preventiva mais firme por parte das autoridades.
Nenhum Estado pode impedir completamente actos criminosos praticados por indivíduos. Contudo, qualquer Estado tem a responsabilidade de prevenir a violência quando os sinais de perigo se tornam evidentes. E, neste caso, os sinais estavam presentes.
A África do Sul ocupa uma posição de liderança política e económica no continente africano. Beneficia de relações comerciais, investimentos e cooperação provenientes dos seus vizinhos. Milhares de moçambicanos, zimbabweanos, malawianos e cidadãos de outros países contribuem diariamente para sectores importantes da economia sul-africana. Muitos desempenham funções que ajudam a manter em funcionamento actividades agrícolas, comerciais, industriais e de serviços.
Por isso, quando estrangeiros passam a viver sob ameaça constante, não está apenas em causa uma questão de segurança pública. Está em causa um princípio fundamental de convivência entre povos africanos.
A situação exige mais do que discursos de ocasião. Exige investigações céleres, responsabilização efectiva dos autores da violência, protecção permanente das comunidades vulneráveis e uma mensagem inequívoca de que não existe espaço para perseguições baseadas na nacionalidade.
Do lado moçambicano, a prioridade imediata deve continuar a ser a assistência aos cidadãos afectados e o apoio às famílias que perderam entes queridos. Mas o momento também exige uma actuação diplomática firme. A amizade histórica entre Moçambique e a África do Sul não pode servir de pretexto para o silêncio quando vidas humanas estão em risco.
Os acontecimentos de Mossel Bay constituem mais um alerta. Não apenas para Pretória, mas para toda a região. A xenofobia não é um problema episódico. Tornou-se uma ferida persistente que continua a abrir-se sempre que a frustração social procura um alvo fácil.
Cada novo ataque representa um fracasso colectivo. Cada família obrigada a fugir representa uma derrota dos valores de solidariedade africana tantas vezes proclamados pelos líderes do continente.
A questão já não é saber se a África do Sul condena a xenofobia. A questão é saber quando conseguirá impedir que ela volte a matar.
SOBRE O AMBIENTE RODOVIÁRIO
Category: Opinião
written by Egidio Cossa | 22 de Junho, 2026
Estamos perante uma crise de combustível ou crise geral do custo de vida?
Na minha modesta opinião, o aumento do preço de combustível está sendo encarado, desde o princípio, numa perspectiva destorcida. Deu-se a entender que o assunto ficaria resolvido subsidiando o transporte colectivo urbano de passageiros, como se o problema desta crise provocada pelo aumento do preço da gasolina e do gasóleo se circunscrevesse apenas no transporte das pessoas a nível das cidades. A sobrevivência da maioria das pessoas não depende apenas do seu transporte, depende de muitos outros factores que também ficam inflacionados com o aumento do preço dos combustíveis. Esta crise afecta também, por exemplo, o valor do frete do transporte de mercadorias que por sua vez vai fazer aumentar o preço do cabaz alimentar.
O preço dos produtos provenientes da agricultura, da pesca e da indústria é também afectado pela crise gerada pelos combustíveis, uma vez que são usados nestas actividades tractores, máquinas e geradores e tudo isto vai infernizar a vida dos cidadãos. Antes de um cidadão se preocupar em se deslocar de um lado para outro usando os transportes, tem de ter capacidade de comprar os produtos básicos para se alimentar. Com fome, ninguém consegue trabalhar, muito menos preocupar-se com o preço do transporte. Não restam dúvidas de que este aumento do preço dos combustíveis afecta directamente o transporte das pessoas e, se estas não conseguem ir trabalhar, tratar dos negócios ou da saúde, a vida dos cidadãos bem como a economia do país entram em rota de colisão.
Já não havia capacidade suficiente de pagar um transporte, cujo custo vinha sendo insuportável para a maioria das pessoas, uma vez que, para se chegar ao destino, paga-se 2 ou 3 bilhetes, fazendo ligações de transporte. Na situação actual de rotura do combustível e aumento do respectivo custo, fica ainda mais penoso para o cidadão sobreviver. Parecia que o Estado se tinha mostrado sensível ao problema, porém, pecou por apenas procurar subsidiar os transportadores urbanos de passageiros licenciados. Desta forma, pretendeu ignorar a realidade dos factos, uma vez que todos sabemos que grande parte dos transportes urbanos de passageiros é exercida pelos não licenciados, e por moto-táxis, situação que vem sendo tacitamente admitida dado ao facto de este mesmo Estado reconhecer a sua incapacidade de oferecer transporte suficiente ou de criar uma política nacional que permita que entidades particulares possam ocupar uma boa parte das responsabilidades do Governo de oferecer transporte. Este problema do agravamento dos preços das viagens nos transportes irá ciclicamente aparecendo na vida dos cidadãos enquanto o Estado continuar a interferir no custo do preço dos bilhetes dos passageiros praticado pelos privados. O Estado pode e deve continuar a oferecer preços sociais nos transportes públicos que disponibiliza aos seus cidadãos, mas deve deixar de interferir no custo das viagens cobradas pelos operadores de transporte particular, uma vez que o particular quer ver o seu negócio a ser rentável. A economia do mercado ou a livre concorrência entre os privados irá, certamente, estabelecer preços competitivos entre estes transpo rtadores e proporcionar assim custos das viagens cada vez mais baixos.
Cada Governo do nosso país que vai sendo nomeado não obedece a uma política nacional para os transportes, provavelmente por ainda não ter sido institucionalizada, razão pela qual cada um vai inventando tipos de transporte, por exemplo, por teleférico, por transporte eléctrico em carris, por barco ou por tractores agrícolas, provavelmente com base no que os nossos dirigentes observaram quando viajaram noutros países. O tipo de transporte para Moçambique tem de se coadunar com as nossas realidades e especificidades, tendo em conta a capacidade de gerir e de tornar sustentável qualquer que seja o projecto que se queira escolher. Na verdade, este é um dos problemas do nosso país que não é de fácil resolução para os nossos governantes que, ao longo dos anos, não encontram o rumo certo. Por esta razão, a solução pela qual optam, é sempre a mesma, a de adquirir novos autocarros para repor a frota danificada. Esta solução já se mostrou ineficaz porque 70 a 80% dos autocarros ficam rapidamente imobilizados nos parques ou nas oficinas. De nada serve ir fazendo aquisição de novos autocarros se não houver garantia de organizar o seguinte: Haver um fornecimento de stok de peças. Proporcionar um sistema eficaz de manutenção das viaturas. Oferecer uma formação avançada aos motoristas.
A falta de formação adequada é também a causa principal do desgaste prematuro das peças e da mecânica dos autocarros e é ainda a causa principal dos acidentes rodoviários no nosso País. Quando somos solicitados para ministrar este tipo de formação nas empresas de transportes, quer de passageiros, quer de cargas, constatamos que o nível de conhecimentos e das técnicas de condução dos motoristas está num patamar muito baixo. O pior é que os nossos dirigentes e até os gestores destas empresas particulares de transportes não têm a percepção de quão má é a qualidade de condutores que estão contratando. É necessário apostar numa formação especial/adicional aos motoristas, para que aprendam a saber fiscalizar os seus carros, a detectar antecipadamente eventuais avarias, conhecerem e familiarizarem-se com as características do carro que vão conduzir, saberem adoptar uma condução adequada às estradas degradadas do nosso país, saberem praticar condução económica, não só de combustível mas também dos componentes dos veículos que conduzem e, principalmente, praticar condução defensiva, para não se envolverem em sinistros rodoviários, face aos comportamentos desviantes dos utentes das nossas estradas. Basta só proporcionar uma formação de condução defensiva para se obter todos estes ganhos, mas continuo a não entender porque razão os nossos dirigentes não optam por proporcionar formações de segurança rodoviária. Por outro lado, custa-me também entender, por exemplo, porque motivo não optamos por complementar o transporte rodoviário pelo transporte ferroviário na região metropolitana de Maputo? Pode-se ligar, por exemplo, Maputo a Matola, Machava, Marraquene, etc por carreiras regulares de comboios. Nas situações de crise, referentes ao preço dos transportes, o problema poderia ser amenizado com esta alternativa de mobilidade proporcionada aos cidadãos. O país tem grande experiência no transporte por comboio, e os Caminhos de Ferro de Moçambique vêm gerindo esta actividade ao longo dos anos de forma sustentável e eficiente.
Perante a crise actual que o país está enfrentando nos transportes por causa do agravamento dos preços dos combustíveis, já ficou explícito que a solução de subsidiar somente os transportes colectivos urbanos de passageiros não foi acolhida satisfatoriamente, sendo urgente voltar a equacionar o problema com todos os parceiros. Torna-se imperioso voltar a dialogar novamente com todos os intervenientes no processo, com vista a encontrar uma saída que tenha consenso e seja compartilhado pela grande maioria. Está evidente que este problema não se resolve apenas subsidiando o transporte urbano de passageiros, uma vez que o mesmo abrange todos os outros sectores do país. O nosso Estado parece estar a perder o controlo desta situação e a prejudicar-se também, porque a economia de um país não se compadece com o estado actual da nação representado por crises como estas que estão sendo mal resolvidas em prejuízo de todos os moçambicanos.
Por: Cassamo Lalá – DIRETOR DA ESCOLA DE CONDUÇÃO INTERNACIONAL
A L M A D I N A
Category: Opinião
written by Egidio Cossa | 22 de Junho, 2026
O Q U R B ÁN
Por: Sheikh Aminuddin Mohamad
Designa-se “Qurbán” o sacrifício de um animal quadrúpede por ocasião da festa do Eid-Ul-Ad’há. Tal ritual tem lugar nos dias 10, 11 e 12 de Dhul-Hidja, décimo segundo mês do calendário lunar. O início deste ritual tem lugar logo a seguir ao Swalaat (oração) do Eid, estendendo-se até ao pôr-do-sol do dia 12 (este ano será nos dias 27, 28 e 29 de Maio).
Embora a sua prática seja permitida à noite, tal não é aconselhável. O melhor dia para a prática do Qurbán é o dia de Eid (dia 27), devendo obrigatoriamente ser feito apenas depois da oração, pois se for feito antes perde a sua validade.
De acordo com a interpretação de um dos quatro mais proeminentes Imam’s, (Abu-Hanifa), o Qurbán só é obrigatório para o muçulmano (homem ou mulher) que possua nos três dias a ele consagrados, riqueza correspondente ao valor de Zakát.
Os animais que podem ser sacrificados são o camelo, o búfalo e o boi, (que podem ser partilhados por sete pessoas), o cabrito e o carneiro (para uma única pessoa, pois não são partilháveis). O boi deve ter mais de 2 anos de idade, o cabrito e o carneiro devem ter pelo menos 1 ano de idade.
É recomendável que se procure o animal destinado ao Qurbán alguns dias antes de sacrificá-lo, devendo ser bem tratado, pois destinando-se ao sacrifício para agradar a Deus, o animal deve ser do melhor que encontrarmos, pois não deve ser defeituoso (cego, zarolho, perneta, doente, com orelhas ou rabo cortados, chifre partido, etc.)
Ao viajante, o Qurbán não é obrigatório, mas caso regresse à casa antes do pôr-de-sol do dia 12 de Dhul-Hijja, então deverá fazê-lo se para tal dispuser de meios materiais.
É sempre melhor (sunnat) que seja a própria pessoa, i. é., o adquirente do animal, a proceder à sua degola caso tenha robustez física suficiente para o fazer, pois caso contrário, pode delegar a alguém, sendo porém recomendável que assista ao acto.
Aos menores não é obrigatório, mesmo que possuam riqueza.
No caso de o animal sacrificado ser de grande porte (camelo, búfalo ou boi) a divisão pelo grupo de sete pessoas deve ser feita por igual, em função do peso e não por estimativa. A porção de carne que couber a cada integrante do grupo pode ficar na totalidade na sua posse, pode doá-la na totalidade ou pode dividi-la em três partes iguais, sendo uma para os pobres, outra para os familiares e amigos, retendo a restante para si mesmo. O mesmo critério é aplicável caso o animal sacrificado seja de pequeno porte (cabrito ou carneiro).
Considerando a emergência em que algumas províncias do País se encontram, pois milhares de pessoas perderam quase a totalidade dos já parcos bens que possuíam, sem dúvidas o melhor acto de momento é mitigar a fome destes sem-nada. Portanto, doar a totalidade da carne aos pobres e necessitados afigura-se sendo a melhor opção.
Ainda de acordo com a interpretação do Imam Abu Hanifa, é permitido doar a carne de Qurbán aos não-muçulmanos.
A intenção de Qurbán não deve ser apenas o consumo da carne, pois se assim for o acto é inválido. Perde igualmente a sua validade se a carne for vendida ou distribuida aos empregados como forma de compensar o seu labor.
Se alguém tenciona fazer Qurbán adquirindo um animal, mas por qualquer razão não conseguir fazê-lo nos três dias prescritos, então deve num acto de caridade doar o animal aos pobres.
Segundo o Imam Shafei, se alguém adquirir um animal para o Qurbán e o mesmo se perder, for roubado ou devorado por algum animal feroz, a aquisição de um outro animal para o substituir não é obrigatória. É sunnat para quem tenciona fazer Qurbán abster-se de cortar as unhas, cabelo ou pelos do seu corpo desde o primeiro dia do mês de Dhul-Hidja até ao dia da degola do animal. Diz ainda o Imam Shafei que não é permitido fazer o Qurbán da parte de uma pessoa viva, sem a sua autorização. E quanto ao defunto, só é permitido se este tiver deixado dinheiro e um testamento para o efeito. Neste caso é obrigatório doar a totalidade da carne aos pobres.
Este ritual de Qurbán é de tão grande importância, que o Profeta (S.A.W.) diz: ” Esse, que dispondo de meios não fizer o Qurbán, que não se aproxime do local de Swalaat de Eid”.Veja-se a gravidade da negligência na observância do Qurbán, a ponto de o Profeta (S.A.W) querer distanciar-se desse tipo de gente.
Apelo a todos os muçulmanos com posses, que cumpram com este ritual, e que distribuam aos pobres e necessitados a carne dos animais abatidos. Lembrem-se daqueles que neste momente de crise estão angustiados, sem nada para vestir e sem nada para comer.
É esta a única forma de perpetuar o espirito de sacrificio demonstrado por Abraão quando lhe foi ordenado por Deus que sacrificasse o seu unico filho, Ismael.
Não devemos tomar isto como um ritual pesado, pois muitos muçulmanos, e não só, degolam animais obedecendo à recomendação de curandeiros para pretensamente agradar a santos e a espíritos. Outros ainda degolam generosamente animais de médio ou grande porte para comemorar aniversários, não raras vezes regados com bebidas alcoólicas, com alguma devassidão à mistura.
O muçulmano deve, muito particularmente neste momento em que o desconforto e a angústia atingiram milhares de lares de irmãos moçambicanos um pouco por todo o País, mostrar-se mais generoso, fazendo Qurbán, pois se de um lado vai agradar a Deus, de outro vai estender o seu braço em solidariedade para com os infortunados.
A ENTREVISTA DA MBC TV COMO AULA DE JORNALISMO POLÍTICO EM MOÇAMBIQUE
Category: Opinião
written by Publicações | 22 de Junho, 2026
Análise pedagógica à luz das teorias do jornalismo, política e economia
A entrevista conduzida pelo jornalista José Belmiro, com a participação de Venâncio Mondlane, Presidente da ANAMOLA e ex-candidato independente às eleições presidenciais de 2024, apoiado pelo partido PODEMOS, foi mais do que um mero encontro televisivo. Foi uma demostração concreta do exercício do jornalismo político sério em Moçambique, onde a tensão, o rigor e a defesa do interesse público se cruzaram em cena.
Poucas vezes, senão nenhuma se assiste à qualidade de entrevista em televisão com esta. Recorda-me a época do Arsénio Henrique na SOICO com MC Roger como entrevistado e noutras ocasiões com figuras sonantes da praça que não perco palavras tentando lembrar os seus nomes.
Este artigo propõe uma leitura analítica desta entrevista, ancorada em teorias clássicas do jornalismo, da ciência política e da economia política, para entender as dinâmicas entre media, política e cidadania no nosso país.
O jornalismo político em acção: José Belmiro na posição do fiscal da democracia
José Belmiro, enquanto jornalista, representou o papel definido por Bill Kovach e Tom Rosenstiel em The Elements of Journalism: a primeira lealdade do jornalista é ao público, e o seu dever é exigir transparência e coerência dos agentes políticos.
Ao confrontar Venâncio Mondlane com dados concretos e exigir explicações claras sobre propostas políticas, Belmiro encarnou o que Jay Rosen chama de jornalismo de responsabilidade pública, ou seja, um mediador crítico que não aceita discursos vagos nem retórica vazia.
No entanto, como a entrevista mostrou, a linha entre firmeza jornalística e provocação é ténue, e o tom por vezes acusatório levantou debates sobre os limites do confronto saudável, tema analisado por Pierre Bourdieu nas suas reflexões sobre os media.
Venâncio Mondlane: entre visão política e desafios da comunicação pública
Venâncio Mondlane, como líder da ANAMOLA e ex-candidato presidencial apoiado pelo PODEMOS, trouxe para o debate uma visão política estruturada, ancorada na distinção entre Estado e Governo, e na defesa de recursos internos para o desenvolvimento.
Contudo, o episódio ilustra a tensão descrita por Max Weber entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, pois a apresentação de ideias políticas exige também a capacidade de responder com dados concretos e realismo financeiro.
A sua atitude defensiva diante das perguntas difíceis, inclusive questionando a qualidade do jornalista, remete ao risco de deslocar o debate do conteúdo para o pessoal, conforme apontado por Hannah Arendt na sua análise da esfera pública.
A pedagogia da entrevista: ensino prático para cidadania e democracia
Como defendeu John Dewey, o jornalismo é uma ferramenta educativa essencial para o exercício da democracia. A entrevista da MBC TV expôs o público moçambicano a um modelo de comunicação onde o cidadão aprende a distinguir discurso político sério de retórica e a exigir responsabilidade.
Através da tensão e do confronto, o público foi convidado a refletir sobre os limites entre promessa e execução, entre visão e meios, um exercício vital numa democracia emergente como a nossa.
Reflexões finais para o jornalismo e a política moçambicana
A entrevista deixa lições valiosas:
Para o jornalismo, a necessidade de profissionalismo e preparação constante, sem temer o confronto, mas evitando a personalização excessiva do debate.
Para os políticos, o desafio de transparência e autocontrolo, sabendo que a comunicação pública exige mais do que discursos — exige provas, dados e respostas.
Para o público, o convite a exigir qualidade no debate político, reconhecendo o papel da imprensa como guardiã da democracia.
A entrevista entre José Belmiro e Venâncio Mondlane foi uma aula prática de jornalismo político, um exercício de democracia e um alerta para os caminhos que ainda temos pela frente na comunicação política em Moçambique. Como jornalista, reafirmo que entrevistas deste calibre devem ser a norma, não a excepção, para que o poder seja sempre escrutinado e a cidadania, fortalecida.
A Colisão das Cinco Gerações: as Marcas de Luxo Estão Prestes a Perder Metade de Seu Mercado
Category: Opinião
written by Publicações | 22 de Junho, 2026
O luxo acaba de ultrapassar um limiar que a indústria nunca havia enfrentado antes: cinco gerações estão, simultaneamente, moldando o que significa prestígio, e suas definições não apenas diferem. Elas colidem.
Para os baby boomers, o luxo ainda está enraizado na realização, no artesanato e nos símbolos do sucesso conquistado: um Rolex, a Kelly da Hermès, o hotel histórico que se assemelha a um clube privado. A geração X valoriza a excelência funcional com o mínimo de teatralidade. Os millennials expandiram o luxo para ecossistemas experienciais de bem-estar, valores e significado, não apenas produtos. A geração Z está reescrevendo completamente o contrato, exigindo alinhamento ético e fluência cultural acima do prestígio herdado. E a geração Alpha surge como a primeira geração que não distingue, de forma alguma, entre status físico e digital.
Eis a realidade estratégica: até 2030, projeta-se que os millennials e a geração Z representem aproximadamente 80% do gasto global em luxo. Não se trata de uma mudança gradual. É uma transferência de influência e poder de mercado que ocorre em tempo real. Ainda assim, muitas marcas de luxo continuam otimizando para o perfil de comprador do passado, clientes que em breve representarão apenas uma fração de sua receita.
As marcas que vencerão essa transição não serão necessariamente aquelas com o legado mais longo ou os preços mais altos. Serão as marcas capazes de preservar uma identidade coerente ao longo de cinco sistemas de valores, sem diluir aquilo que as tornou valiosas em primeiro lugar. Em outras palavras, serão as marcas que compreendem a confiança.
O luxo sempre foi sobre confiança. Não a versão de marketing da confiança. A versão vivida. Se há uma única ideia que deveria ancorar a próxima década do luxo, é esta: legado sem relevância é apenas nostalgia cara.
O Prestígio Acaba de se Tornar Mais Complexo
O antigo modelo de prestígio era elegantemente simples: exclusividade mais preço igual a desejabilidade. Exibir o logotipo, demonstrar o custo, coletar status. Essa fórmula está morta.
Hoje, o prestígio é multidimensional e implacável. Os consumidores mais jovens recompensam a substância em detrimento da sinalização. Avaliam as marcas não por comunicados à imprensa, mas por desempenho mensurável, como as marcas se comportam, o que apoiam, quem incluem. Querem narrativas que conectem o legado à cultura contemporânea, sem o tour pelo museu corporativo. Cada vez mais, esperam uma sofisticação digital que fortaleça, e não substitua, a conexão humana.
Isso criou uma verdade desconfortável para muitas marcas tradicionais: a reputação agora expira mais rápido do que antes. O prestígio já não é herdado. Ele é continuamente renegociado.
O luxo deixou de ser uma garantia de lealdade. Tornou-se um teste de relevância. Já é possível ver as linhas de fratura. As categorias de “luxo duro”, como relógios e joias, frequentemente mantêm lealdade intergeracional porque o artesanato atravessa idades. Mas moda, beleza e luxo acessível vivem uma troca sem precedentes. A aceleração de tendências, a cultura da revenda e o escrutínio de preços estão tornando os consumidores mais jovens implacavelmente pragmáticos. Eles usarão Chanel vintage, mas comprarão novo na The Row. Herdarão um Patek Philippe, mas gastarão seu próprio dinheiro em um Rolex seminovo.
A implicação é clara. O produto, por si só, já não protege a posição de mercado. A dinâmica das categorias importa, mas a experiência do cliente é mais significativa. O luxo ainda deveria parecer uma relação. E marcas demais se esqueceram disso.
A Questão dos US$ 80 Trilhões: a Influência Vem Antes da Herança
Todos no universo do luxo conhecem a grande transferência de riqueza, mais de US$ 80 trilhões projetados para se moverem entre gerações até 2045. Mas muitas marcas falam disso como se fosse um evento futuro. Estão perdendo a verdadeira história: a influência precede a herança por décadas.
Dentro de famílias de altíssimo patrimônio, jovens adultos moldam cada vez mais decisões sobre viagens, arte, moda, gastronomia, filantropia e mercado imobiliário muito antes de controlarem os ativos. O herdeiro de 28 anos pode não assinar a transferência bancária da vila, mas é ele quem escolhe o destino, o arquiteto e os padrões de sustentabilidade.
Marcas de luxo focadas exclusivamente nos atuais detentores de riqueza estão, silenciosamente, perdendo linhagens inteiras de lealdade familiar. O erro não é ignorar os consumidores jovens. É tratá-los como um segmento separado, e não como os influenciadores de decisão que já são. Os operadores mais inteligentes não esperam que os ativos mudem de mãos. Constroem relacionamentos antes que o dinheiro se mova.
As Marcas Só Percebem Quando Já É Tarde Demais
A relevância do luxo raramente colapsa da noite para o dia. Ela se esvai por meio de uma presença cultural enfraquecida, estagnação criativa e desalinhamento com valores emergentes. Quando a liderança percebe a queda nas vendas, a marca já perdeu anos de impulso. E a reconstrução leva tempo. Três a sete anos, no mínimo. É por isso que táticas de curto prazo frequentemente falham. Marcas tentam atalhos por meio de ciclos de hype ou viradas criativas rápidas, e o mercado pune a inconsistência mais duramente do que recompensa a ousadia.
As recuperações mais sólidas compartilham um padrão: direção coerente de longo prazo, artesanato elevado, narrativa emocional renovada, integração crível de ESG, distribuição controlada e integridade de preços. Observe o que está ausente: perseguição de tendências, saturação de influenciadores e descontos defensivos. Hermès, Chanel, Rolex, Patek Philippe, Louis Vuitton e Porsche têm sucesso porque entendem a contenção estratégica. Sabem o que é intocável em seu DNA. Evoluem a estética sem abandonar os fundamentos. Participam da cultura de forma inteligente, não reativa. O luxo não é construído por reinvenção constante. É construído por relevância disciplinada.
O Que as Lojas de Departamento Revelam Sobre a Indústria
A imprensa especializada em luxo gosta de enquadrar as recentes disrupções nas lojas de departamento como “falhas do modelo de distribuição”. É uma narrativa conveniente. Também é incompleta. O problema mais profundo não é logístico. Não são apenas os balanços. É a ruptura do principal diferencial do luxo: o relacionamento.
No passado, a loja de departamento existia para dar aos clientes acesso a maisons que não eram facilmente alcançáveis e para entregar um nível de serviço digno dessas maisons. Mas hoje, muitos clientes podem ir diretamente à marca online e ser tratados com cuidado extraordinário.
Então, por que pagar o mesmo preço, ou mais, para ser tratado como anônimo?
Colocando de forma direta: se você remove o serviço, o que torna o luxo melhor do que um varejista de massa? E os clientes percebem. Eles não deixam de comprar luxo por completo. Deixam de comprar luxo em lugares que não os respeitam. Como já afirmei em privado e em público: o mercado de luxo não “arrefeceu”. Os consumidores continuam gastando. Apenas não desperdiçam dinheiro.
Essa é a mudança que muitas equipes de liderança ainda não reconhecem plenamente: o comprador de luxo de hoje é altamente exigente, altamente informado e plenamente disposto a redirecionar sua lealdade.
A Tecnologia Não é Inimiga do Luxo; o Mau Uso é
Algumas marcas de luxo afirmam que “não conseguem escalar a intimidade”. Dizem que relacionamentos são caros demais, complexos demais, pessoais demais para serem entregues em escala. Isso já não é verdade.
A verdadeira inovação no luxo não é a tecnologia visível. É a tecnologia invisível que permite uma experiência mais humana. Quando bem executada, os clientes não veem a IA. Eles se sentem lembrados.
Já existem marcas que executam isso com brilhantismo: você entra na loja e é recebido pelo nome. O vendedor conhece suas últimas compras, datas importantes, preferências e provável intenção, sem jamais levantar um tablet como se estivesse seguindo um roteiro.
Isso não acontece por magia. Acontece porque a tecnologia agora permite ao luxo entregar serviço personalizado em escala, se a marca decidir investir nisso. As marcas que dizem não conseguir fazer isso não estão bloqueadas pela tecnologia. Estão bloqueadas por prioridades.
O Recalibramento Estratégico
A maioria das marcas aborda a transição geracional com a pergunta errada. Perguntam: “Como atraímos consumidores mais jovens?” A pergunta melhor é: como permanecemos coerentes diante de cinco definições diferentes de prestígio? A resposta está na clareza de identidade.
As marcas que lideram a próxima década já sabem o que não pode mudar nelas. Modernizam com cuidado. Evoluem design e narrativa sem apagar o legado. Investem em ESG com ações mensuráveis, porque a transparência substituiu a reputação como moeda da confiança. Criam personalização omnicanal que adapta a experiência do cliente ao estágio de vida sem fragmentar a voz da marca. E, acima de tudo, reconstruem o luxo onde ele pertence: no relacionamento.
O Que Vem a Seguir
Entre agora e 2035, o luxo completará sua transição de uma indústria liderada pelo legado para uma moldada por consumidores orientados por valores, nativos digitais, que veem o prestígio como emocional e ético. O futuro ecossistema do luxo será mais experiencial, mais ético, mais digital, mais orientado à comunidade e globalmente interconectado. Será moldado mais pela identidade e pelo bem-estar do que pelos marcadores tradicionais de status. E será liderado por marcas com identidades consistentes, e não por aquelas que confundem adaptabilidade com estratégia.
A geração Alpha já está chegando, plenamente moldada pela IA, por tecnologias imersivas e por identidades híbridas físico-digitais. Sua definição de luxo fará com que os debates atuais sobre quiet luxury versus logomania pareçam ingênuos.
O imperativo estratégico para a liderança do luxo é direto: clarificar o que é intocável, evoluir o que é necessário e proteger a visão de longo prazo contra pressões de curto prazo.
Ao final, as marcas que sobreviverem a essa colisão não serão as mais barulhentas. Serão aquelas que se lembram da verdade mais antiga do luxo: a confiança é construída, detalhe por detalhe.
Christopher Olshan é CEO do The Luxury Council, que fornece inteligência estratégica e serviços de consultoria a marcas de luxo, propriedades hoteleiras e executivos de nível C que navegam a transformação geracional, as dinâmicas do mercado UHNW e o posicionamento competitivo nos mercados globais de luxo. Ele é autor de White-Glove Trust (lançamento global previsto para fevereiro de 2026).
A circulação massiva de vídeos nas redes sociais, retractando uma fiscalização relâmpago protagonizada pelo deputado do partido PODEMOS, Ivandro Massingue, no Centro de Saúde do Zimpeto, na cidade de Maputo lançou o país num novo debate sobre os limites da actuação política, o respeito pelas instituições públicas e a protecção dos profissionais da saúde e do Estado no exercício das suas funções.
Nas imagens amplamente difundidas, o mandatário do povo surge alegadamente envolvido em actos de agressão verbal e física contra o director daquela unidade sanitária, Elísio Chaúque,numa acção que segundo diversas leituras, ultrapassou o âmbito da fiscalização política para resvalar para um confronto pessoal, gerando indignação entre profissionais de saúde e sectores da sociedade civil.
Perante a pressão pública e mediática, a Direcção da Saúde da Cidade de Maputo representada órgão máxima reagiu com uma conferência de imprensa convocada de forma quase imediata. O tom adoptado foi firme, emotivo e politicamente carregado. A mensagem central foi reiterada em várias intervenções: “O deputado não pode pensar que está acima do povo; por ter passaporte diplomático e regalias do estado nós, profissionais de saúde, somos o povo e fomos nós que o elegemos.”
A declaração não apenas repudiou o comportamento atribuído ao deputado, como procurou reposicionar os profissionais de saúde enquanto sujeitos políticos legítimos, afastando a narrativa de subalternidade institucional frequentemente associada ao sector. Para a Direcção da Saúde, o episódio não representa um simples incidente isolado, mas sim um ataque directo à dignidade de uma classe profissional que opera sob condições já marcadas por escassez de recursos, pressão social e elevada exposição ao desgaste emocional.
Segundo a directora de Saúde da Cidade de Maputo, Paloma Maripiha, o director do Centro de Saúde do Zimpeto sofreu danos morais significativos e encontra-se emocionalmente abalado. De acordo com a responsável, o impacto do episódio transcende a esfera individual, afectando o ambiente laboral e minando a autoridade técnica necessária para a boa gestão dos serviços de saúde ao nível comunitário.
“Quando um profissional de saúde é publicamente humilhado ou intimidado no seu local de trabalho, toda a estrutura entra em colapso simbólico. Isso fragiliza o sistema e desmotiva quem está na linha da frente”, sublinhou Maripiha.
Apesar da gravidade das acusações e da forte retórica institucional, a resposta quanto às medidas concretas a serem adoptadas revelou-se limitada. Questionada sobre a abertura de processos disciplinares, a realização de averiguações independentes ou a eventual interposição de acções judiciais, a directora optou por uma posição de cautela extrema, restringindo-se a anunciar a elaboração de uma nota formal a ser submetida à Assembleia da República.
A ausência de referência a mecanismos internos de responsabilização ou a instrumentos legais levanta interrogações sobre a eficácia institucional na protecção dos seus quadros e sobre o real alcance das reacções públicas. Para analistas ouvidos pelo Visão Moçambique, o caso expõe um padrão recorrente: a rápida condenação política mediática, seguida de uma actuação administrativa tímida e pouco transparente.
Num contexto em que a fiscalização parlamentar é frequentemente confundida com acções de intimidação directa, o episódio reabre o debate sobre os limites da imunidade política e a necessidade de salvaguardas claras para os servidores públicos. Mais do que um conflito individual, o caso Ivandro Massingue poderá tornar-se um precedente decisivo na definição das fronteiras entre autoridade política e respeito institucional em Moçambique.
Enquanto isso, a sociedade aguarda para perceber se o desfecho ficará restrito a comunicações formais ou se o Estado avançará para um apuramento efectivo de responsabilidades, capaz de restaurar a confiança dos profissionais de saúde e reafirmar o primado da legalidade sobre o poder circunstancial.