Mais de 400 mil pessoas estão em risco de fome na província de Nampula

zambeze junho 26

Cerca de 469 mil pessoas estão em situação de insegurança alimentar na província de Nampula, uma realidade que preocupa os Serviços Provinciais das Actividades Económicas. Milhares de famílias ainda não conseguem garantir uma alimentação suficiente e regular, apesar de a produção agrícola apresentar sinais de crescimento em várias zonas da província.

Eráti lidera a lista dos distritos em situação de vulnerabilidade, com 192.130 pessoas em risco de fome. A crise estende-se ainda aos distritos de Mossuril, com 76.308 afetados, Monapo (74.544), Angoche (44.161) e Ilha de Moçambique (22.375).

Os dados foram apresentados nesta terça-feira (02) na Cidade de Nampula, por Bonifácio Cambir, representante dos Serviços Provinciais das Actividades Económicas, durante a VI Sessão Ordinária do Conselho Provincial de Segurança Alimentar e Nutricional, dirigida pelo Secretário de Estado, Plácido Pereira. Na ocasião, Cambir disse também que o acesso à água potável e ao saneamento continua a influenciar a situação alimentar das famílias, sobretudo nas zonas rurais.

Segundo o representante, os distritos de Eráti, Mossuril, Monapo, Angoche e Ilha de Moçambique são os mais afectados, concentrando grande parte da população em situação de vulnerabilidade alimentar.

“De acordo com o Relatório de Avaliação Nacional de Segurança Alimentar Pós-colheita de 2025, estimava-se que 3,5 milhões de moçambicanos, o que corresponde a 18% da população, encontravam-se em situação de insegurança alimentar aguda. O inquérito foi realizado entre abril de 2025 e março de 2026, tendo sido identificadas 653.734 pessoas na província de Cabo Delgado e 469.184 na província de Nampula”, explicou.

O responsável acrescentou que nos próximos meses se espera reverter esta situação com a entrada da colheita da campanha agrária 2025/2026, garantindo assim o acesso físico, social e económico permanente a alimentos seguros para as comunidades.

De forma geral, dissea fonte, a província espera uma produção agrícola significativa de culturas básicas como milho, feijão, arroz, mapira e mandioca, produtos que poderão reforçar a disponibilidade no mercado.




Grindrod aposta na inclusão e forma mulheres maquinistas para reforçar equidade laboral

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Maputo — A Grindrod Moçambique está a consolidar a sua estratégia de promoção da igualdade de género no sector ferroviário e logístico através do projecto “Mulheres Operadoras de Locomotivas”, uma iniciativa que visa aumentar a participação feminina em áreas tradicionalmente dominadas por homens.

Há cerca de um ano, a empresa recrutou e formou seis mulheres para desempenharem funções de operadoras de locomotivas no Terminal de Carvão da Matola (TCM). Após concluírem a formação, as profissionais encontram-se actualmente habilitadas para executar diversas actividades ferroviárias, incluindo recepção e inspecção de comboios, manobras e posicionamento de vagões, abastecimento aos tipplers, composição de comboios e apoio às operações diárias do terminal.

Com esta aposta, o Terminal de Carvão da Matola passou a ser reconhecido como uma das operações ferroviárias da região com uma representação significativa de mulheres operadoras de locomotivas na sua força de trabalho.

Para Isabel Carlos, colaboradora da Grindrod há 15 anos e coordenadora de operações ferroviárias, a transformação observada nos últimos anos demonstra o compromisso da empresa com a inclusão. Segundo relata, quando ingressou na área ferroviária era a única mulher a desempenhar funções naquele sector.

“A aposta da Grindrod deve ser saudada porque o trabalho realizado por uma mulher não se diferencia do realizado por um homem. Com esta inclusão, demonstramos que as mulheres também conseguem executar estas tarefas. É uma batalha vencida e sentimos que somos acolhidas pelos nossos colegas”, afirmou.

Entre as novas profissionais destaca-se Malda Maquil, de 26 anos, que trabalha na empresa há três anos. A jovem iniciou a formação para maquinista em Março de 2025 e actualmente exerce a profissão.

“Aceitei o desafio de ser maquinista mesmo sabendo que era uma profissão tradicionalmente associada aos homens. Durante a formação percebi que a maioria das profissões exercidas pelos homens também pode ser desempenhada pelas mulheres”, declarou.

A presença feminina na Grindrod vai além da condução de locomotivas. Actualmente, a empresa conta com mulheres em diversas áreas operacionais, incluindo operação de máquinas e actividades ferroviárias especializadas. Algumas profissionais já possuem competências para conduzir comboios em trajectos internacionais, incluindo viagens de ida e volta à África do Sul.

O Director de Operações (COO) da Grindrod, Pedro Quong, destacou a coragem e a dedicação das recém-formadas maquinistas, considerando a iniciativa uma demonstração concreta do compromisso da empresa com a inclusão e a diversidade.

Segundo o responsável, a Grindrod estabeleceu como meta alcançar uma maior equidade de género nos próximos cinco anos, procurando equilibrar a representação feminina e masculina na sua força laboral.

As cinco mulheres maquinistas recentemente formadas deixaram igualmente uma mensagem de incentivo a outras mulheres, apelando para que tenham confiança, coragem e determinação para enfrentar desafios profissionais e conquistar novas oportunidades. A iniciativa surge como um exemplo de mudança no sector ferroviário moçambicano, contribuindo para a quebra de barreiras históricas e para a construção de ambientes de trabalho mais inclusivos e equilibrados.




GAFI: Moçambique arrisca regressar à Lista Cinzenta sobre branqueamento de capitais

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Moçambique corre o risco de regressar à lista cinzenta do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI), caso abrande os mecanismos de combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo.

O alerta foi lançado na cidade da Beira, província de Sofala, durante uma capacitação de magistrados e investigadores do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) em matéria de crimes financeiros e combate ao branqueamento de capitais.

Na ocasião, o representante do Ministério das Finanças e coordenador nacional do comité executivo de coordenação das políticas de prevenção e combate ao branqueamento de capitais, financiamento do terrorismo e proliferação de armas de destruição em massa, Luís Cezerilo, advertiu que o País corre o risco de regressar à lista cinzenta caso não continue a fortalecer os mecanismos de fiscalização, supervisão e aplicação da lei.

“Esta questão da avaliação mútua de 2028 é muito importante. Porquê? Porque se nós baixarmos os índices de organização a todos os domínios, dos aplicadores da lei, dos supervisores, das instituições não financeiras, se nós não continuarmos a fortificar o nosso sistema através de acções concretas nesses três domínios, a probabilidade de regressar à lista cinzenta é iminente”, disse Cezerilo.

Cezerilo explicou ainda que os trabalhos preparatórios para a próxima avaliação começam já em Setembro de 2027, exigindo maior coordenação institucional e acções concretas de prevenção. A fonte sublinhou ainda que o reforço das capacidades das instituições financeiras e não financeiras é essencial para evitar fragilidades no sistema nacional de combate ao branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo.

De  acordo com uma publicação do Jornal Savana, a formação foi promovida pelo Comité Executivo de Coordenação de Políticas de Prevenção e Combate ao Branqueamento de Capitais, Financiamento do Terrorismo e Proliferação de Armas de Destruição em Massa.

Durante a abertura da capacitação, representantes ligados ao GAFI defenderam a necessidade de Moçambique preservar as conquistas alcançadas nos últimos anos e preparar-se para a próxima avaliação mútua internacional, prevista para o período entre 2028 e 2030.

Recorde-se que a saída de Moçambique da lista do GAFI foi amplamente celebrada como “uma grande conquista”, sobretudo para um país que tenta restaurar a sua reputação financeira, atrair investimentos e manter-se ligado aos canais bancários internacionais.

O País saiu oficialmente da lista cinzenta do GAFI a 24 de Outubro de 2025, após três anos sob monitorização intensiva. Integrava essa lista desde Outubro de 2022, devido a vulnerabilidades institucionais e a um quadro legislativo desactualizado, o que obrigou o governo a implementar reformas profundas, num esforço para reverter o cenário e restaurar a confiança económica.




Nampula registou cerca de 90 mil partos só no primeiro trimestre deste ano

Nampula natalidade em alta

O sector da Saúde na província de Nampula manifestou preocupação com o elevado aumento do número de partos registados nos primeiros três meses deste ano, numa situação associada sobretudo à gravidez precoce e às uniões prematuras.

A preocupação foi manifestada pela directora provincial da Saúde, Selma Xavier, no âmbito das celebrações do Dia Internacional de Acção pela Saúde da Mulher, assinalado sob o lema “Direitos, justiça, acção para todas as mulheres e meninas”.

Segundo Selma Xavier, só no primeiro trimestre deste ano foram registados cerca de 90 mil partos de mulheres com idades compreendidas entre os 10 e 19 anos, um número que o sector considera alarmante.

“Temos muitas mulheres que dão parto e não estão previstas naquilo que são os nossos cálculos, que são mulheres entre os 10 aos 19 anos, e geralmente falamos de mulheres em idade fértil com condições para gerar uma criança. Só no primeiro trimestre tivemos cerca de noventa mil partos e este é um número muito alto, porque geralmente a nossa média de partos é de 250 mil partos anuais, apesar de no ano passado termos registado cerca de 300 mil partos anuais, e isto preocupa-nos muito como Governo de Nampula”, afirmou.

Selma Xavier manifestou igualmente preocupação com os índices de mortalidade materna e reforçou o compromisso do sector no combate às uniões prematuras e à gravidez precoce na província.

“Estamos a tentar lutar contra a gravidez precoce e as uniões prematuras em cada distrito da província, trabalhando com o nosso grupo-alvo através da disponibilização de métodos de planeamento familiar, porque queremos que as meninas tenham mais oportunidades de concluir os estudos. Também estamos a trabalhar com mulheres que já têm filhos, mas necessitam de um espaçamento adequado para acompanharem devidamente as crianças”, explicou.




Relançada produção agrícola em Mabalane

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O Estabelecimento Penitenciário Regional Sul (EPRS), localizado no distrito de Mabalane, província de Gaza, está a relançar a produção agrícola, depois de ter perdido 20 hectares de culturas diversas, na fase de colheita, onde se previa obter 120 toneladas, por conta das cheias e inundações registadas em Janeiro e Março do corrente ano.

Para recuperar as perdas registadas, o chefe do Departamento das Actividades Económicas da instituição, Paulo Nguenha, disse esta sexta-feiira que já foram trabalhados e semeados 38 hectares, de um plano global de 114 hectares, prevendo-se colher cerca de 374 toneladas de milho, cebola, feijão e tomate.

Entretanto, apontou desafios ligados à constante avaria de equipamentos usados no processo de produção. “Temos tido avarias constantes de motobombas, tractores, tubagem e dificuldades de transporte para o escoamento das culturas para os grandes mercados”, lamentou.

Por sua vez, a governadora da província de Gaza, Margarida Mapandzene Chongo, que visitou os campos de produção do EPRS, encorajou os esforços e resiliência da instituição, bem como a decisão de relançar a actividade agrícola, para a recuperação das culturas perdidas.

Segundo a governadora, apesar das perdas causadas pelas cheias, os reclusos e a direcção da penitenciária, não cruzaram os braços e continuam empenhados no aumento da produção. “Constatámos com satisfação a resiliência da penitenciária e dos seus reclusos no âmbito da produção agrícola. As perdas foram enormes, mas continuam a trabalhar e já têm 38 hectares já trabalhados, o que é muito bom”, afirmou.

Margarida Chongo destacou ainda que a produção agrícola contribui para a redução das despesas públicas, na aquisição de alimentos para a população em reclusão.

A governadora manifestou preocupação com relação às avarias de equipamentos essenciais, como tractores, electrobombas e motobombas, tendo defendendido a necessidade de a instituição reinvestir parte das receitas obtidas da venda da produção, para aquisição gradual de acessórios e outros equipamentosagrícolas.

“Sem tractor e sem motobombas torna-se difícil garantir uma melhor produção e produtividade. É importante que, aos poucos, a renda da venda dos produtos seja usada para resolver alguns destes problemas, enquanto o Governo continua a mobilizar apoios”, referiu.

A visita de um dia ao distrito de Mabalane termina com a entrega de sete toneladas de milho e cinco toneladas de feijão nhemba a um universo de 700 agredados familiares.




Receita do Estado com megaprojetos em Moçambique caiu 41% em 2025 para 157 milhões de euros

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Os Projetos de Grande Dimensão e as Concessões Empresariais registaram um prejuízo global de 164 milhões de euros em 2025, segundo a Conta Geral do Estado enviada ao parlamento.

A receita do Estado moçambicano com Projetos de Grande Dimensão das áreas mineiras, hidrocarbonetos e metalúrgicas, recuou quase 41% em 2025, para 11.680 milhões de meticais (157 milhões de euros), segundo dados oficiais.

De acordo com a Conta Geral do Estado (CGE) aprovada pelo Governo, consultada esta quarta-feira pela Lusa e que segue para o parlamento, este desempenho — que exclui dividendos de concessões — compara com os 19.652 milhões de meticais (264,5 milhões de euros) entregues por estas empresas no exercício de 2024.

No ano passado, estas empresas entregaram ao Estado 4.902,76 milhões de meticais (66 milhões de euros) de Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas (IRPC), 2.639,65 milhões de meticais (35,5 milhões de euros) de Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRPS), sendo os restantes 4.137,84 milhões de meticais (55,7 milhões de euros) de IVA, royalties e outros impostos, explica o Governo, no documento.

Enquanto dorme… O mundo não pára

Os Projetos de Grande Dimensão (PGD) e as Concessões Empresariais (CE) operam nas áreas mineiras, hidrocarbonetos e metalúrgicas, sendo que a respetiva contribuição “depende das ligações que os mesmos estabelecem com a economia”, incluindo “ligações produtivas” de desenvolvimento da rede de fornecedores e consumidores ou tecnológicas, pela transferência de tecnologia. Também pela criação de emprego ou em termos fiscais, de poupança e reservas externas, explica o Governo, na CGE de 2025.

Na Conta Geral do Estado, o Governo refere que “constatou-se que em 2025, os PGD e CE registaram um prejuízo global de 12.199 milhões de meticais [164,2 milhões de euros]”, uma melhoria de 65,61% face aos resultados de 2024, que atingiram então um prejuízo total de 35.468 milhões de meticais (477,4 milhões de euros).

Acrescenta que os resultados são influenciados pelos prejuízos dos projetos da Mozal (alumínio), Vulcan (carvão) e das Minas do Rovuboè, que somaram prejuízos no valor total de 49.587,48 milhões de meticais (667,4 milhões de euros).

“Anulando desta forma o lucro apresentado pelas empresas Sasol, Areias Pesadas de Moma, Midwest África e Ncondezi, no valor total de 37.388,85 milhões de meticais [503,2 milhões de euros]”, conclui a CGE.




FMI regressa a Maputo no próximo mês

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Depois de um ano de confronto silencioso com o Fundo Monetário Internacional, o Governo moçambicano prepara-se agora para um dos momentos económicos mais delicados desde a crise das “dívidas ocultas”: negociar um novo empréstimo com o FMI, aceitar a desvalorização do Metical e iniciar um processo de ajustamento económico que poderá redefinir o equilíbrio político e financeiro do país.

A mudança representa uma reviravolta dramática na posição que Maputo manteve até recentemente. Em Abril de 2025, Moçambique e o FMI suspenderam — embora sem cancelar formalmente — o programa de cooperação financeira, depois de o Governo resistir às principais exigências impostas pela instituição de Bretton Woods, sobretudo a desvalorização da moeda nacional e os cortes na massa salarial do Estado.

Durante meses, o impasse permaneceu total. Nas reuniões de Primavera do FMI, realizadas em Washington entre 13 e 18 de Abril deste ano, representantes da instituição deixaram claro que não haveria novas negociações enquanto Moçambique não demonstrasse disposição para cumprir as condições consideradas essenciais para restaurar o equilíbrio macroeconómico.

Mas em poucas semanas tudo mudou.

Primeiro, o Governo moçambicano surpreendeu os mercados ao liquidar integralmente uma dívida de cerca de 630 milhões de dólares junto do FMI, eliminando atrasos e regularizando a sua posição perante a instituição financeira internacional.

Depois, a 2 de Abril, Maputo contratou a consultora internacional de dívida soberana Alvarez & Marsal, numa decisão vista como um forte sinal político e financeiro. A escolha não passou despercebida: o director-geral da empresa, Reza Baqir, trabalhou durante duas décadas no FMI e chegou a liderar a divisão de política de dívida da organização.

Finalmente, Moçambique sinalizou ao FMI aquilo que durante anos evitou admitir publicamente: a aceitação de uma futura desvalorização do Metical.

As três decisões abriram caminho para um encontro considerado decisivo entre a delegação moçambicana e dirigentes do FMI em Washington. O resultado foi imediato: uma missão técnica da instituição financeira visitará Moçambique em Junho para iniciar negociações sobre um novo programa de financiamento.

Nos bastidores do poder, porém, a decisão está longe de ser consensual. A eventual desvalorização do Metical tornou-se um dos temas mais explosivos dentro da Frelimo.

Há cinco anos que a taxa de câmbio se mantém praticamente estável em cerca de 63,9 meticais por dólar, sustentada artificialmente pelo Banco Central através de intervenções no mercado cambial e uso de reservas internacionais.

Grande parte dos economistas considera, contudo, que a moeda nacional está profundamente sobrevalorizada. Em círculos financeiros, muitos defendem que a taxa real deveria situar-se entre 90 e 100 meticais por dólar.

Uma desvalorização desta magnitude teria efeitos imediatos e contraditórios. Por um lado, tornaria as importações drasticamente mais caras. Combustíveis, alimentos importados, medicamentos, equipamentos industriais e produtos de consumo sofreriam aumentos significativos de preços, agravando o custo de vida e pressionando ainda mais famílias urbanas já afectadas pela inflação e desemprego.

Por outro lado, sectores produtivos nacionais poderiam ganhar competitividade. Actualmente, devido ao Metical artificialmente forte, importar arroz asiático chega a ser mais barato do que produzir arroz em Gaza, Sofala ou Zambézia. Uma moeda mais fraca tornaria os produtos nacionais relativamente mais baratos, incentivando a agricultura, exportações e substituição de importações.

É precisamente aqui que o debate económico se transforma numa disputa política interna.

Importantes sectores ligados à elite económica da Frelimo controlam redes de importação altamente lucrativas, beneficiando directamente da manutenção de um Metical valorizado. Uma desvalorização reduziria margens de lucro desses grupos e alteraria profundamente o actual modelo económico baseado em importações.

Nos corredores do poder em Maputo, o receio é que o ajustamento económico abra fissuras políticas dentro do próprio partido governamental.

A discussão deixou de ser apenas “se” haverá desvalorização. A questão agora é “como” ela será feita: de uma só vez, num choque cambial abrupto, ou gradualmente, ao longo de vários anos.

Enquanto o debate prossegue, a economia real já sente os sinais da crise.

Empresas enfrentam a escassez crescente de dólares para importações. Bancos comerciais restringem acesso a divisas. Transferências internacionais atrasam-se. Sectores industriais reportam dificuldades na aquisição de matérias-primas e equipamentos.

No final de 2025, Moçambique acumulava cerca de 800 milhões de dólares em atrasos de pagamentos externos, situação que gerou forte pressão sobre o sistema financeiro nacional.

É precisamente neste ponto que surge outra polémica: o controverso pagamento antecipado da dívida ao FMI.

Segundo fontes financeiras, o próprio FMI não exigia o pagamento imediato dos 630 milhões de dólares. O dinheiro saiu directamente das reservas internacionais do Banco de Moçambique, numa decisão que, segundo relatos de bastidores, enfrentou resistência dentro do Banco Central.

Diversos banqueiros defendem que teria sido mais prudente utilizar essas reservas para reduzir os atrasos externos, aliviando a escassez de divisas na economia e permitindo maior circulação de dólares no mercado local.

Mas o Governo optou por outra estratégia: reconstruir credibilidade junto do FMI e garantir elegibilidade para futuras iniciativas internacionais de reestruturação da dívida.

Nos últimos meses, cresce internacionalmente a discussão sobre um novo mecanismo de perdão parcial da dívida para países pobres altamente endividados, semelhante ao programa HIPC implementado no início dos anos 2000.

Moçambique surge frequentemente citado entre os países potencialmente candidatos a um futuro processo global de alívio da dívida. Contudo, existe uma condição fundamental: os países beneficiários precisam manter regularizada a sua relação com o FMI.

Foi precisamente esse cálculo estratégico que levou sectores do Governo a defender o pagamento integral da dívida.

Há ainda outro argumento técnico considerado crucial: como a dívida ao FMI é denominada em dólares, qualquer desvalorização forte do Metical aumentaria automaticamente o peso da dívida em moeda nacional, agravando ainda mais as contas públicas.

O problema é que o espaço de manobra do país tornou-se extremamente reduzido.

A ajuda externa continua em queda. Parceiros internacionais reduziram apoio financeiro. O acesso a novos empréstimos em moeda forte praticamente desapareceu. Agências internacionais de notação financeira mantêm elevada desconfiança em relação à sustentabilidade da dívida moçambicana.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta múltiplas crises simultâneas.

No Norte, a insurgência armada em Cabo Delgado continua a provocar deslocamentos massivos, destruição de infra-estruturas e pressão humanitária. Mais de 1,3 milhões de pessoas já foram afectadas desde o início do conflito em 2017.

Em paralelo, ciclones sucessivos destruíram estradas, escolas, hospitais e sistemas agrícolas em várias províncias do Centro e Norte do país.

O Governo vai rever o Orçamento do Estado para incorporar cerca de 3,5 mil milhões de meticais provenientes das receitas do gás natural, destinados à reconstrução pós-cheias e recuperação de infra-estruturas danificadas pelas manifestações pós-eleitorais de 2024 e 2025.

Mas o peso das necessidades continua muito acima da capacidade financeira do Estado.

Paradoxalmente, tudo isto acontece enquanto Moçambique permanece sentado sobre algumas das maiores reservas de gás natural do planeta.

O país aposta fortemente nos megaprojectos liderados pela TotalEnergies, ExxonMobil e Eni como principal esperança para transformar a economia nas próximas décadas. No entanto, a prometida prosperidade do gás ainda não chegou à maioria da população.

Enquanto investidores internacionais aguardam estabilidade política e segurança em Cabo Delgado, o cidadão comum enfrenta aumento do custo de vida, desemprego crescente, salários pressionados e deterioração do poder de compra.

Para muitos economistas, Moçambique entrou agora numa fase decisiva: ou consegue atravessar os próximos anos com reformas económicas controladas até à entrada massiva das receitas do gás, ou poderá enfrentar uma nova crise financeira de grandes proporções.

A chegada da missão do FMI em Junho poderá marcar o início desse novo ciclo.

Mas também poderá abrir um período socialmente difícil, marcado por austeridade, pressão inflacionária, tensão cambial e disputas políticas internas sobre quem suportará os custos reais do ajustamento económico que se aproxima.




Governo contesta estimativa de prejuízos da TotalEnergies no projecto Mozambique LNG

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O Governo de Moçambique discorda da estimativa apresentada pela gigante francesa TotalEnergies segundo a qual os sucessivos atrasos no projecto Mozambique LNG terão provocado custos adicionais avaliados em cerca de dois mil milhões de dólares norte-americanos.

A divergência surge numa altura em que decorrem negociações entre o Executivo moçambicano e os parceiros do empreendimento para a aprovação de um plano de desenvolvimento actualizado do projecto de gás natural liquefeito, considerado um dos maiores investimentos energéticos do continente africano.

De acordo com informações divulgadas pela Bloomberg, uma auditoria recente conduzida pela consultora britânica Bayphase não conseguiu confirmar os custos alegadamente suportados pela TotalEnergies em consequência da paralisação prolongada das obras. Perante este cenário, Maputo mostra-se relutante em aceitar a estimativa de sobrecustos avançada pela petrolífera francesa.

O projecto Mozambique LNG, avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares, foi interrompido após a deterioração da situação de segurança na província de Cabo Delgado, particularmente nas proximidades da vila de Palma, onde grupos armados associados ao autoproclamado Estado Islâmico intensificaram ataques contra civis e infra-estruturas.

Em 2021, na sequência de violentos ataques registados nas imediações do local de implantação do projecto, a TotalEnergies declarou força maior e suspendeu todas as actividades de construção. Na altura, o empreendimento era apontado como o maior investimento estrangeiro realizado em África.

Após cerca de cinco anos de interrupção, a TotalEnergies anunciou, em Janeiro de 2026, o relançamento formal do projecto, depois de ter levantado, no final de 2025, a declaração de força maior que permanecia em vigor desde o agravamento da insegurança em Cabo Delgado.

Contudo, a retoma plena do projecto continua dependente do entendimento entre o Governo moçambicano e os investidores quanto aos custos acumulados durante o período de paralisação. As duas partes mantêm negociações para alcançar consenso sobre o novo plano de desenvolvimento e os mecanismos de financiamento dos encargos adicionais.

Os sucessivos atrasos já obrigaram à revisão do calendário de produção do projecto. Inicialmente prevista para 2024, a primeira exportação de gás natural liquefeito foi posteriormente adiada para 2027 e, mais tarde, para 2029.

O Mozambique LNG é considerado estratégico para a economia nacional, podendo transformar Moçambique num dos principais exportadores africanos de gás natural liquefeito e reforçar o abastecimento do mercado energético internacional nas próximas décadas.




Eid Al-Adha 2026 em Moçambique: Comunidade turca reforça solidariedade com distribuição de Qurbani

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A celebração do Eid Al-Adha 2026 ficou marcada, em Moçambique, por uma forte ação de solidariedade promovida pela Associação Ilha da Paz, em parceria com a Willow International School, através da distribuição de carne de Qurbani a milhares de famílias em diferentes pontos do país.

Durante a cerimónia alusiva à festividade islâmica, o representante da Associação Ilha da Paz e promotor do evento, Mehmet Baslik, destacou que o Eid Al-Adha representa “um tempo em que a fé se transforma em ação e em que cada gesto de solidariedade se torna uma ponte de esperança”.

Segundo Mehmet Baslik, a comunidade turca ligada à Willow International School uniu esforços com parceiros locais para apoiar famílias moçambicanas afetadas pelas recentes cheias e tempestades, levando assistência alimentar e mensagens de fraternidade.
“No que nos move não existe interesse político nem busca por visibilidade. O que nos inspira são os valores universais do serviço à humanidade, da partilha com quem mais precisa, da promoção da educação e da construção da paz entre culturas e religiões”, afirmou.
No âmbito da iniciativa de Qurbani deste ano, foram distribuídas cabeças de gado em várias províncias e distritos do país, nomeadamente: Maputo – 141 cabeças; Katembe – 25 cabeças; Manhiça – 100 cabeças; Lichinga – 100 cabeças; Nampula – 100 cabeças; Inhambane – 80 cabeças; Beira – 15 cabeças; Ilha de Moçambique – 10 cabeças; Moma – 20 cabeças; Macia – 2 cabeças; Palma – 5 cabeças.
De acordo com Mehmet Baslik, “cada número representa não apenas uma família, mas uma vida tocada pela fraternidade”.

O Eid Al-Adha, também conhecido como Festa do Sacrifício, é uma das principais celebrações do calendário islâmico. A data assinala a disposição do profeta Ibrahim (Abraão) em sacrificar o seu filho Ismael em obediência a Deus, simbolizando fé, entrega e solidariedade para com os mais necessitados.

Além do significado religioso, a celebração é tradicionalmente marcada pela partilha de alimentos, sobretudo carne proveniente do Qurbani, com famílias vulneráveis, reforçando os valores de união, compaixão e assistência social.

Em Moçambique, a iniciativa promovida pela Associação Ilha da Paz e pela Willow International School voltou a demonstrar o papel crescente das ações comunitárias e humanitárias na promoção da inclusão social e do apoio às populações afetadas por dificuldades económicas e eventos climáticos extremos. 




Banco de Moçambique aumenta coeficientes de reservas obrigatórias

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O Banco de Moçambique anunciou a aprovação de novas taxas de incidência de reservas obrigatórias aplicáveis às instituições financeiras, no âmbito da implementação da política monetária e gestão da liquidez no sistema bancário nacional.

De acordo com a circular emitida pela instituição, o coeficiente de reservas obrigatórias aplicável à base de incidência em moeda nacional passa a ser fixado em 39,00%, enquanto o coeficiente referente à base de incidência em moeda estrangeira foi estabelecido em 29,50%.

A medida foi adoptada ao abrigo do artigo 6 do Regulamento sobre Apuramento e Constituição de Reservas Obrigatórias, aprovado pelo Aviso n.º 1/GBM/2023, de 26 de Abril.

Segundo o banco central, a nova circular entra em vigor a partir do período de constituição de reservas obrigatórias com início marcado para o dia 27 de Maio de 2026, revogando oficialmente a Circular n.º 01/EMO/2025, de 28 de Janeiro, bem como todas as disposições que contrariem o novo instrumento normativo.

As reservas obrigatórias correspondem à parcela dos depósitos que os bancos comerciais devem manter junto do banco central, sendo consideradas um dos principais instrumentos de controlo da liquidez e estabilidade financeira.

O Banco de Moçambique informou ainda que eventuais dúvidas relativas à interpretação e aplicação da circular deverão ser encaminhadas ao Departamento de Mercados e Gestão de Reservas da instituição.