Desastres causaram mais de 74 mil mortes em África no biénio 2023-2024

Cerimónia de abertura da Conferência Internacional sobre Redução do Risco de Desastres em África e lançamento do Quarto Relatório Bienal de África3

Os desastres naturais causaram mais de 74 mil mortes em África, afectaram cerca de 64 milhões de pessoas e provocaram perdas económicas superiores a oito mil milhões de dólares norte-americanos durante o biénio 2023-2024. Os dados foram apresentados esta terça-feira, 13 de Outubro, pelo Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, durante a abertura da Conferência Internacional sobre a Redução do Risco de Desastres e Resiliência em África, realizada em Maputo, ocasião em que foi lançado o Quarto Relatório Bienal de África sobre a Redução do Risco de Desastres.

Segundo Chapo, o número de ocorrências de desastres no continente aumentou de 612 para 738 no período em análise, com as cheias, os ciclones tropicais e as secas a representarem cerca de 90% do total dos danos registados. Os números, apresentados no relatório bienal, evidenciam a dimensão dos riscos que continuam a ameaçar as populações, as infra-estruturas e os esforços de desenvolvimento dos países africanos.

Na sua intervenção, o Chefe do Estado afirmou que Moçambique se encontra entre os dez países do mundo mais afectados por desastres naturais, em consequência da sua localização geográfica e da exposição recorrente a ciclones, cheias, inundações, secas e tempestades.

“Estamos sempre a reconstruir”, declarou Chapo, referindo-se aos danos provocados pelos fenómenos naturais em estradas, pontes, escolas, hospitais, sistemas de abastecimento de água, redes de energia eléctrica e infra-estruturas de comunicação.

Para o Presidente da República, a redução do risco de desastres deve constituir uma prioridade estratégica, uma vez que a ausência de mecanismos eficazes de prevenção e resposta compromete os avanços económicos, sociais e ambientais e dificulta o cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Mais de 1.500 comités locais na linha da frente

Ao abordar a experiência moçambicana na gestão de desastres, Daniel Chapo destacou o papel dos mais de 1.500 Comités Locais de Gestão de Risco de Calamidades, que actuam nas comunidades, sobretudo nas zonas ciclicamente afectadas por cheias, inundações e ciclones.

Segundo o estadista, estes comités constituem uma das principais estruturas de prevenção e resposta do país, através da divulgação de alertas em línguas locais, do uso de megafones e da mobilização das rádios comunitárias para informar as populações sobre os riscos e facilitar a retirada atempada das zonas ameaçadas.

“Estes é que são os verdadeiros campeões, estes é que são os heróis no salvamento de vidas do povo moçambicano”, afirmou, ao reconhecer o trabalho dos agentes comunitários que permanecem no terreno durante as emergências.

Chapo explicou que a redução dos impactos dos desastres depende da coordenação entre as instituições públicas e as comunidades, defendendo o reforço dos sistemas de aviso prévio, dos planos de prontidão e dos mecanismos de acção antecipada, resposta e recuperação.

O Presidente comparou a actuação destes comités à de um exército mobilizado em todo o território nacional, considerando que a sua presença permite alertar as populações antes da ocorrência dos fenómenos e reduzir a exposição directa aos perigos.

Cheias de 2026 provocaram menos vítimas do que as de 2000

Na comparação entre os impactos das cheias registadas em diferentes períodos, Daniel Chapo recordou as inundações de 1977 e de 2000, esta última responsável pela morte de mais de 700 pessoas.

O Chefe do Estado afirmou que as cheias registadas em 2026 tiveram uma magnitude superior à das ocorridas em 2000, mas provocaram menos de 200 mortes, resultado que atribuiu, em parte, à melhoria da capacidade de prevenção, alerta e mobilização das comunidades.

Apesar da redução do número de vítimas, Chapo lamentou as perdas humanas e afirmou que o objectivo deve continuar a ser evitar mortes em consequência de fenómenos naturais previsíveis.

O discurso presidencial destacou igualmente as cheias ocorridas entre Janeiro e Março deste ano, que provocaram perdas humanas e materiais, sobretudo nas regiões Sul e Centro do país.

O estadista recordou ainda os ciclones Idai, Kenneth, Fred e Chido, cujos efeitos se fizeram sentir em Moçambique e noutros países da região, incluindo Madagáscar, Malawi, Zimbabwe, Zâmbia e África do Sul.

Durante a cerimónia, o Presidente prestou homenagem às 139 vítimas do recente naufrágio ao largo do Djibuti e do acidente envolvendo a embarcação nacional CHAMBO, no lago Niassa, incluindo 15 crianças, conforme referido no seu discurso.

Financiamento climático e responsabilidade internacional

Daniel Chapo defendeu o reforço da cooperação internacional e do financiamento destinado à prevenção, mitigação e recuperação dos impactos dos desastres naturais, considerando insuficientes e tardios os apoios prometidos pelos parceiros internacionais.

Segundo o Presidente, a demora na disponibilização dos recursos financeiros compromete os esforços de reconstrução e agrava as dificuldades enfrentadas pelos países africanos, muitos dos quais dispõem de recursos limitados para responder a emergências de grande dimensão.

O Chefe do Estado sublinhou que Moçambique contribui de forma reduzida para a poluição global, mas continua a suportar impactos severos das alterações climáticas, devido à sua localização geográfica e à exposição a fenómenos meteorológicos extremos.

O país é atravessado por nove bacias hidrográficas, uma característica que, associada à sua exposição costeira e às condições climáticas, aumenta a vulnerabilidade a cheias e ciclones.

Neste sentido, Chapo considerou a justiça climática uma questão central para o continente africano e para a comunidade internacional, defendendo que os compromissos financeiros devem traduzir-se em medidas concretas de protecção das populações e das infra-estruturas.

O Presidente apelou aos governos, parceiros de desenvolvimento e demais actores para que reforcem o compromisso colectivo com a redução do risco de desastres e a concretização da Agenda 2063 da União Africana.

África chamada a passar do diálogo à acção

A Conferência Internacional sobre a Redução do Risco de Desastres e Resiliência em África decorre ao longo de três dias, em Maputo, reunindo representantes de governos, da União Africana, da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), das Nações Unidas, do Banco Mundial, da União Europeia e de organizações da sociedade civil, entre outros participantes.

O encontro visa promover a partilha de experiências e a construção de soluções para melhorar a prevenção, a prontidão e a resposta aos desastres no continente.

Na ocasião, foi lançado o Quarto Relatório Bienal de África sobre a Implementação do Programa de Acção do Quadro de Sendai para a Redução do Risco de Desastres, referente ao período 2023-2024.

Chapo defendeu que os resultados da conferência devem ultrapassar as declarações políticas e traduzir-se em medidas práticas, com destaque para a modernização dos sistemas de aviso prévio, o investimento em infra-estruturas resilientes e a capacitação das comunidades.

O Presidente da República apelou ainda à continuidade do debate sobre o financiamento climático e a justiça climática, insistindo na necessidade de uma resposta internacional proporcional à dimensão dos riscos enfrentados pelos países africanos.

“A resiliência começa nas nossas comunidades”, afirmou, defendendo que as populações locais devem ocupar uma posição central nas estratégias de prevenção e redução dos impactos dos desastres naturais.

A conferência foi aberta no Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres, assinalado a 13 de Outubro sob o lema “A Resiliência Começa em Casa”.




Fernando Rafael desafia gestores do sector a levar água a milhões de moçambicanos

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O Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Fernando Rafael, declarou aberta uma nova etapa na transformação do subsector de água e saneamento em Moçambique, afirmando que o sucesso das reformas deixará de ser medido por leis aprovadas ou projectos anunciados e passará a ser avaliado pelo impacto real na vida dos cidadãos.

Ao abrir a Reunião Nacional de Indução e Alinhamento Institucional da Águas de Moçambique, Instituto Público, o governante enquadrou esta nova fase na implementação do Programa ProÁguas 2026–2036, lançado pelo Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, classificando-o como o maior instrumento nacional para universalizar o acesso à água potável e ao saneamento.

“O tempo das reformas administrativas deu lugar ao tempo dos resultados”, sublinhou Fernando Rafael, ao defender uma nova cultura de liderança assente na disciplina, responsabilização, prestação de contas e proximidade com as populações.

Segundo o Ministro, as profundas reformas introduzidas pela Lei n.º 9/2024 criaram um modelo institucional mais moderno, baseado na separação entre regulação, gestão patrimonial e operação dos serviços, permitindo o surgimento da Águas de Moçambique, Instituto Público, e das dez Sociedades Empresariais de Água e Saneamento, chamadas a assegurar uma gestão mais eficiente e próxima dos cidadãos.

Fernando Rafael foi peremptório ao afirmar que o desempenho dos novos administradores deixará de ser avaliado por indicadores burocráticos, passando a ser medido por resultados concretos: mais famílias ligadas à rede de abastecimento, maior continuidade do fornecimento, redução da água não facturada, melhoria da qualidade do serviço, sustentabilidade financeira das empresas e rapidez na resposta aos consumidores.

O Ministro revelou ainda as metas ambiciosas do Programa ProÁguas para a próxima década. Até 2036, o Governo pretende estabelecer 876.335 novas ligações domiciliárias de água, construir 5.336 fontanários, instalar 20.074 fontes dispersas e criar cerca de 2,8 milhões de novas infra-estruturas de saneamento melhorado.

Entre os objectivos mais transformadores está igualmente a eliminação progressiva da defecação a céu aberto, através da criação de 3,69 milhões de agregados familiares LIFECA (Livres de Fecalismo a Céu Aberto), reforçando a saúde pública, a dignidade das comunidades e a protecção ambiental.

Num discurso marcado por forte sentido de responsabilização, Fernando Rafael deixou orientações claras aos novos gestores, exigindo a aceleração da execução dos projectos, o levantamento rigoroso da situação dos sistemas de abastecimento existentes, o redimensionamento das infra-estruturas incapazes de responder ao crescimento populacional, o aumento efectivo da disponibilidade de água para as populações e a valorização dos quadros técnicos locais.

“O principal indicador do nosso desempenho deve ser simples: mais água para as pessoas”, afirmou.

O governante alertou que obras paralisadas representam famílias que continuam privadas de um direito fundamental, defendendo uma gestão baseada em informação fiável, planeamento rigoroso, inovação, transparência e liderança presente no terreno.

Fernando Rafael afirmou igualmente que os Acordos de Mandato de Gestão assinados pelos administradores constituem um compromisso directo com o Estado e com os moçambicanos, devendo servir como instrumentos permanentes de monitoria e avaliação do desempenho.

O Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, reforçou a dimensão social da reforma, afirmando que “ o verdadeiro sucesso será alcançado quando mulheres moçambicanas deixarem de percorrer quilómetros à procura de água, quando escolas e unidades sanitárias tiverem abastecimento regular, quando agricultores puderem aumentar a produção e quando empresários encontrarem um serviço público confiável para investir”.

Fernando Rafael lembrou aos presentes sobre a visão do Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, segundo a qual a água deve afirmar-se como um instrumento de desenvolvimento económico, inclusão social e redução das desigualdades territoriais, apelando aos novos gestores para que façam da competência, da disciplina e do compromisso com o interesse público as marcas da nova gestão do sector.




Contestatários de Ossufo Momade avançam para a Procuradoria e exigem congresso da Renamo antes de Outubro

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O membro da Comissão de Gestão da Renamo, António Muchanga, anunciou, no sábado (11), que os sectores contestatários da liderança de Ossufo Momade vão submeter, nos próximos dias, um processo à Procuradoria-Geral da República (PGR), com o objectivo de exigir o cumprimento dos mecanismos estatutários do partido e acelerar a realização de um congresso electivo antes do mês de Outubro.

Segundo Muchanga, a iniciativa visa garantir que a Renamo escolha uma nova liderança em tempo útil para preparar o próximo ciclo eleitoral, defendendo que o actual impasse interno compromete o funcionamento normal da organização.

O anúncio foi feito durante o lançamento oficial das visitas de trabalho da Comissão de Gestão aos distritos das províncias da região Sul, uma acção que pretende reforçar o contacto com as bases do partido e recolher contribuições dos membros sobre o futuro da formação política.

De acordo com António Muchanga, o processo a ser submetido à Procuradoria será sustentado pelas assinaturas recolhidas junto de militantes da Renamo em diferentes pontos do país, esclarecendo que a recolha não teve um carácter meramente simbólico, mas visa produzir efeitos jurídicos.

“Daqui a alguns dias vamos remeter um processo à Procuradoria. Aquelas assinaturas não eram para inglês ver, nem para conhecer o número de membros que estão connosco, mas para fazer valer os nossos direitos na justiça”, afirmou.

A Comissão de Gestão prevê percorrer vários distritos das províncias do Sul com o propósito de auscultar as estruturas locais, reforçar a articulação interna e consolidar o movimento que defende a realização do congresso.

Durante a sua intervenção, Muchanga acusou a actual liderança da Renamo de impedir o regular funcionamento dos órgãos estatutários, apontando como exemplo a não realização da segunda sessão ordinária do Conselho Nacional, órgão responsável pela aprovação do plano de actividades, do orçamento e do relatório de contas do partido.

“Qual é o plano de actividades deste ano? Quem o aprovou? Onde foi aprovado? Qual é o orçamento? Quem o aprovou? Onde?”, questionou.

O dirigente defendeu que compete ao Conselho Nacional desencadear os procedimentos necessários para convocar o congresso e proceder à eleição de uma nova direcção.

“Nós queremos que ele vá ao Conselho Nacional, e que o Conselho Nacional convoque o Congresso”, declarou.

Muchanga reiterou que a Renamo deve chegar ao mês de Outubro com uma nova liderança legitimada pelos seus órgãos internos.

“Até Outubro deve haver na Renamo uma nova liderança”, insistiu.

Durante o encontro, vários intervenientes manifestaram preocupação com o agravamento das divisões internas no antigo maior partido da oposição, considerando que as divergências entre diferentes alas estão a enfraquecer a organização.

Na perspectiva de Muchanga, a realização de um congresso constitui a principal via para restaurar a estabilidade interna e devolver legitimidade à liderança partidária.

“Esta é a prova mais evidente de que a Renamo está esquartejada”, afirmou. Por sua vez, o porta-voz dos desmobilizados da Renamo, João Machava, manifestou apoio às iniciativas promovidas pela Comissão de Gestão e apelou ao reforço da mobilização dos membros para garantir o cumprimento dos estatutos e a realização do congresso nos prazos defendidos pelos contestatários




Fórum Global Gateway: Chapo desafia investidores europeus a apostar na industrialização verde de Moçambique

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O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, dirige esta segunda-feira, na cidade de Maputo, a cerimónia de abertura da II Edição do Fórum de Negócios Global Gateway Moçambique–União Europeia, um encontro que reúne representantes dos sectores público e privado de Moçambique e da União Europeia com o objectivo de reforçar as relações económicas, atrair investimentos sustentáveis e acelerar a transformação estrutural da economia nacional.

O evento decorre no Indy Village Hotel e conta com a participação de empresários, investidores, instituições financeiras internacionais, representantes de governos, organizações empresariais e parceiros de desenvolvimento, num momento em que Moçambique procura consolidar-se como um dos destinos mais atractivos para o investimento estrangeiro no continente africano.

Organizado pelo Governo de Moçambique, pela União Europeia, pela Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) e por outras entidades parceiras, o fórum integra a estratégia Global Gateway, a principal iniciativa da União Europeia para promover investimentos sustentáveis em países parceiros e reforçar a conectividade económica, energética, digital e infra-estrutural entre diferentes regiões do mundo.

Crescimento verde no centro da agenda

A segunda edição do Fórum decorre sob o lema “Parcerias para o Crescimento Verde: Desbloqueando o Investimento Sustentável entre Moçambique e a União Europeia”, reflectindo a crescente aposta na construção de uma economia mais resiliente, competitiva e ambientalmente sustentável.

A escolha do tema surge numa altura em que Moçambique procura posicionar-se como um actor relevante na transição energética global, beneficiando do seu vasto potencial em energias renováveis, recursos minerais estratégicos e oportunidades ligadas à economia verde.

Espera-se que a intervenção do Presidente Daniel Chapo destaque a importância do investimento privado como motor do crescimento económico, da criação de emprego e da modernização dos sectores produtivos, reforçando simultaneamente o compromisso do Governo com a melhoria do ambiente de negócios e a implementação de reformas orientadas para a atracção de capitais nacionais e estrangeiros.

A União Europeia continua a ser um dos mais importantes parceiros de desenvolvimento e investidores em Moçambique, mantendo uma presença significativa em sectores como energia, agricultura, infra-estruturas, transportes, educação e desenvolvimento institucional.

O Fórum pretende aprofundar essa cooperação, criando novas oportunidades para empresas europeias interessadas em expandir operações no mercado moçambicano e para empresas nacionais que procuram estabelecer parcerias estratégicas com investidores internacionais.

Entre os principais objectivos da iniciativa destacam-se o fortalecimento das relações comerciais e económicas entre Moçambique e os Estados-membros da União Europeia, a identificação de oportunidades de investimento em sectores prioritários e a mobilização de recursos financeiros para projectos com elevado impacto económico e social.

Os participantes irão igualmente discutir mecanismos destinados a melhorar o acesso ao financiamento, reduzir riscos associados ao investimento e promover iniciativas capazes de acelerar o crescimento sustentável.

Sectores estratégicos em destaque

Ao longo dos trabalhos serão apresentados diversos projectos considerados prioritários para o desenvolvimento nacional, abrangendo áreas como energia renovável, infra-estruturas, indústria transformadora, agricultura comercial, logística, transportes, turismo sustentável e economia digital.

Especial atenção será dada às oportunidades ligadas à industrialização verde, um dos pilares da actual estratégia de desenvolvimento económico do país.

O conceito assenta na promoção de actividades industriais capazes de gerar valor acrescentado, aumentar as exportações e criar emprego, sem comprometer os compromissos ambientais assumidos por Moçambique no quadro internacional.

A combinação entre os recursos naturais existentes, a localização estratégica do país e o crescente interesse internacional por investimentos sustentáveis poderá criar condições favoráveis para o surgimento de novos pólos industriais e cadeias de valor associadas à transição energética.

Outro dos eixos centrais do Fórum é o incentivo às parcerias público-privadas, consideradas fundamentais para acelerar a implementação de grandes projectos de infra-estrutura e desenvolvimento económico.

As sessões de trabalho incluem encontros empresariais, apresentações institucionais e mesas-redondas destinadas a aproximar investidores, entidades públicas e instituições financeiras internacionais.

Os organizadores esperam que estes contactos resultem na identificação de novas oportunidades de negócio e na celebração de acordos capazes de impulsionar investimentos concretos nos próximos anos.

Segundo fontes ligadas à organização, o evento procura ir além do debate político e institucional, privilegiando a criação de mecanismos práticos que permitam transformar intenções de investimento em projectos efectivamente implementados.

Global Gateway aposta em África

Lançada pela União Europeia em 2021, a estratégia Global Gateway prevê a mobilização de centenas de milhares de milhões de euros em investimentos destinados a promover o desenvolvimento sustentável em países parceiros, com especial enfoque em África.

A iniciativa abrange áreas como energia limpa, conectividade digital, transportes, saúde, educação e inovação tecnológica, procurando oferecer alternativas de financiamento e cooperação assentes em elevados padrões de transparência, sustentabilidade e responsabilidade social.

Para Moçambique, a participação nesta estratégia representa uma oportunidade de captar recursos financeiros, tecnologia e conhecimento especializado necessários para acelerar a transformação económica e melhorar a competitividade nacional.

A realização da II Edição do Fórum de Negócios Global Gateway Moçambique–União Europeia acontece num contexto em que o Governo intensifica os esforços para atrair investimento externo e diversificar a base produtiva da economia.

As autoridades moçambicanas consideram que a expansão das parcerias com o sector privado europeu poderá desempenhar um papel decisivo na concretização de projectos estruturantes, na geração de emprego para a juventude e no fortalecimento das exportações nacionais.

Ao abrir oficialmente o encontro, o Presidente Daniel Chapo deverá reiterar a visão do Executivo de transformar Moçambique num destino cada vez mais competitivo para o investimento internacional, apostando numa agenda de crescimento inclusivo, industrialização sustentável e integração económica regional.

Os resultados do Fórum serão acompanhados com expectativa pelos sectores empresarial e financeiro, que veem na iniciativa uma plataforma estratégica para impulsionar uma nova fase de cooperação económica entre Moçambique e a União Europeia, baseada em investimentos sustentáveis, inovação e desenvolvimento partilhado.




Chapo mobiliza investidores norte-americanos para impulsionar infraestruturas, turismo e energia

Presidente da República recebe em audiência em Washington o Presidente de Negócios Internacionais da ACROW Bridge1

 O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, iniciou este domingo uma intensa agenda de diplomacia económica nos Estados Unidos da América, marcada por encontros com potenciais investidores e parceiros estratégicos interessados em reforçar a sua presença em Moçambique. As reuniões, realizadas em Washington, centraram-se nos sectores das infraestruturas, turismo, energia e financiamento internacional, tendo resultado na manifestação de interesse de várias entidades norte-americanas em apoiar projectos considerados prioritários para o desenvolvimento económico e social do país.

A deslocação do Chefe do Estado moçambicano aos Estados Unidos antecede a sua participação no Fórum sobre Fragilidades 2026, evento internacional organizado pelo Grupo Banco Mundial, no qual Daniel Chapo será o único Chefe de Estado convidado a intervir e co-presidir à sessão inaugural ao lado do presidente da instituição, Ajay Banga.

Durante o primeiro dia da visita, o Presidente reuniu-se separadamente com Linda Thomas-Greenfield, antiga Embaixadora dos Estados Unidos junto das Nações Unidas, Garrick Gish, director-executivo da U.S. International Finance Partners (IFP), e Paul Sullivan, presidente de Negócios Internacionais da ACROW Bridge.

Investimento e promoção internacional de Moçambique

No final da audiência com o Chefe do Estado moçambicano, Linda Thomas-Greenfield destacou o potencial das oportunidades apresentadas e manifestou disponibilidade para apoiar o Governo na mobilização de novos investidores internacionais.

Segundo a antiga diplomata norte-americana, a reunião permitiu identificar áreas concretas de cooperação e investimento, sobretudo nos sectores da energia, infraestruturas e segurança, considerados fundamentais para sustentar o crescimento económico e criar melhores condições para o desenvolvimento sustentável.

Thomas-Greenfield explicou que, através da APCO Worldwide e da iniciativa associada à Cimeira de Investimento Global em África, liderada pelo antigo presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Akinwumi Adesina, pretende colaborar com as autoridades moçambicanas na identificação de empresas e fundos de investimento interessados em participar em projectos estratégicos no país.

A responsável considerou que Moçambique reúne condições para atrair capitais internacionais em sectores de elevado potencial, defendendo a necessidade de fortalecer os mecanismos de promoção económica e de aproximação entre investidores e instituições públicas.

Turismo e hotelaria despertam interesse de investidores

Outro dos encontros de destaque foi realizado com Garrick Gish, CEO da U.S. International Finance Partners, empresa especializada na mobilização de capitais e estruturação financeira para grandes empreendimentos internacionais.

Segundo Gish, as conversações com o Presidente da República concentraram-se nas oportunidades existentes nos sectores do turismo e da hotelaria, áreas que considera particularmente atractivas para investidores estrangeiros.

O responsável revelou que a instituição pretende deslocar uma equipa técnica a Moçambique nas próximas semanas para avaliar directamente várias oportunidades de investimento e identificar possíveis parcerias com entidades nacionais.

A intenção, explicou, passa por mobilizar financiamento internacional e atrair marcas globais de hotelaria para desenvolver novos projectos turísticos capazes de valorizar o potencial natural e cultural do país.

Analistas económicos consideram que o interesse demonstrado pela IFP poderá representar uma oportunidade importante para acelerar a expansão da oferta turística moçambicana, sobretudo em regiões com elevado potencial ainda pouco explorado.

Projecto de 112 pontes avança

No domínio das infraestruturas, o Presidente Daniel Chapo reuniu-se com Paul Sullivan, presidente de Negócios Internacionais da ACROW Bridge, empresa que integra o consórcio responsável pela implementação do projecto de construção de 112 pontes em Moçambique.

A iniciativa resulta de um memorando de entendimento assinado entre a empresa e o Governo moçambicano em Fevereiro deste ano e constitui um dos maiores programas de melhoria da conectividade rodoviária actualmente em curso no país.

Durante o encontro, as partes analisaram o estágio de implementação do projecto e reafirmaram o compromisso de concluir a entrega das infraestruturas até ao final de 2026.

Paul Sullivan destacou a determinação demonstrada pelo Presidente da República na concretização de resultados concretos para as populações, defendendo que o desenvolvimento de infraestruturas continua a ser um dos pilares fundamentais para estimular o crescimento económico.

Segundo explicou, o projecto está a ser desenvolvido em estreita articulação com o Ministério dos Transportes e Logística e com a Administração Nacional de Estradas (ANE), visando melhorar a circulação de pessoas e mercadorias, reduzir custos logísticos e promover a integração económica entre diferentes regiões do país.

Especialistas em infraestruturas defendem que a construção das novas pontes poderá contribuir significativamente para aumentar a resiliência das redes de transporte, sobretudo em zonas frequentemente afectadas por cheias e fenómenos climáticos extremos.

Moçambique no centro do debate internacional sobre fragilidade e segurança

Além da componente económica, a visita do Presidente da República aos Estados Unidos possui igualmente uma forte dimensão política e diplomática.

Daniel Chapo participará na segunda-feira na sessão inaugural do Fórum sobre Fragilidades 2026, uma iniciativa promovida pelo Grupo Banco Mundial que reúne decisores políticos, académicos, representantes da sociedade civil, gestores públicos e privados, bem como instituições financeiras internacionais.

O evento, realizado de dois em dois anos, é considerado uma das principais plataformas globais de reflexão sobre os desafios relacionados com fragilidade institucional, segurança, conflitos e desenvolvimento sustentável.

Nesta edição, o fórum deverá reunir cerca de três mil participantes, dos quais mil estarão presentes fisicamente e dois mil participarão através de plataformas digitais.

A presença de Daniel Chapo como único Chefe de Estado convidado é vista como um reconhecimento internacional do papel desempenhado por Moçambique na gestão de desafios relacionados com segurança, estabilidade e reconstrução em contextos de vulnerabilidade.

Durante a sua intervenção, o estadista moçambicano deverá partilhar a experiência nacional na abordagem das questões ligadas à fragilidade, segurança e conflito, apresentando igualmente os esforços desenvolvidos pelo país para promover a paz, fortalecer as instituições e criar condições para o crescimento económico inclusivo.

A visita a Washington enquadra-se na estratégia do Governo moçambicano de reforçar a diplomacia económica e diversificar as fontes de investimento externo, num contexto em que o país procura acelerar a implementação de grandes projectos estruturantes e expandir oportunidades nos sectores produtivos.

Os encontros realizados pelo Presidente da República representam um sinal positivo para os mercados internacionais, demonstrando a intenção do Executivo de aprofundar parcerias com investidores estrangeiros e mobilizar recursos para projectos de impacto económico e social.

Com o interesse manifestado por empresas ligadas ao financiamento internacional, turismo, hotelaria e infraestruturas, o Governo espera transformar os contactos estabelecidos em Washington em investimentos concretos capazes de gerar emprego, melhorar serviços públicos e fortalecer a competitividade da economia moçambicana nos próximos anos.




Moçambique assume  Presidência da Comissão das Bacias dos Rios Incomáti e Maputo

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País sucede à África do Sul na liderança da INMACOM e defende reforço da cooperação regional face aos desafios das mudanças climáticas

A República de Moçambique assumiu esta sexta-feira a presidência rotativa da Comissão das Bacias Hidrográficas dos Rios Incomáti e Maputo (INMACOM), reafirmando o seu compromisso com a gestão sustentável e equitativa dos recursos hídricos partilhados, bem como com o fortalecimento da cooperação regional para enfrentar os desafios decorrentes das mudanças climáticas.

Falando durante a Primeira Reunião do Conselho de Ministros da INMACOM, o Ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Fernando Rafael, destacou a importância estratégica da Comissão na promoção da utilização sustentável das águas das bacias dos rios Incomáti e Maputo, sublinhando que a cooperação entre os Estados-membros tem contribuído para melhorar a qualidade de vida das populações e impulsionar o desenvolvimento económico da região.

Na sua intervenção, o governante agradeceu ao Governo da África do Sul pela organização do encontro e pelo trabalho realizado durante o período em que exerceu a presidência da Comissão, desde a sua criação em 2021.

“Os esforços desencadeados pelos Estados-membros demonstram o seu compromisso com a agenda do desenvolvimento sustentável, através da cooperação regional, cujos resultados são visíveis na coordenação das acções, na partilha de informação hidrológica, na monitoria da qualidade da água e na mobilização de recursos para a implementação de projectos conjuntos”, afirmou.

Segundo o Ministro, a partilha de informação em tempo útil e a coordenação regional têm desempenhado um papel fundamental na mitigação dos efeitos dos eventos climáticos extremos, contribuindo para a redução significativa das perdas de vidas humanas e dos prejuízos económicos associados a cheias e secas.

Ao assumir a presidência da Comissão, Moçambique comprometeu-se a prosseguir os esforços de mobilização de recursos para a implementação da Estratégia da INMACOM 2023–2028, recentemente adoptada pelos Estados-membros.

“O nosso país assume esta responsabilidade com elevado sentido de compromisso, responsabilidade e respeito por todos os actores que intervêm na gestão das bacias hidrográficas partilhadas”, declarou.

O governante reconheceu que a região continua a enfrentar desafios significativos decorrentes da ocorrência cíclica de cheias severas e secas prolongadas, fenómenos agravados pelas mudanças climáticas. Neste contexto, defendeu o reforço da cooperação internacional, do diálogo permanente e da negociação entre os países que partilham recursos hídricos transfronteiriços.

Durante a reunião, Moçambique agradeceu ainda o apoio prestado pelos países-membros da Comissão, pelo Secretariado da INMACOM e pelos parceiros de cooperação, cujo contributo tem sido determinante para a implementação de iniciativas voltadas para a gestão sustentável das bacias hidrográficas.

Na ocasião, Fernando Rafael reiterou o compromisso do Estado moçambicano com os princípios estabelecidos no Protocolo da SADC sobre Cursos de Água Partilhados e com os instrumentos regionais de cooperação hídrica, assegurando que a presidência moçambicana trabalhará para garantir a implementação efectiva das decisões e estratégias adoptadas.

A Comissão das Bacias Hidrográficas dos Rios Incomáti e Maputo reúne Moçambique, África do Sul e Eswatini, tendo como principal missão promover a gestão integrada, sustentável e cooperativa dos recursos hídricos partilhados pelas três nações.




FMI regressa a Maputo no próximo mês

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Depois de um ano de confronto silencioso com o Fundo Monetário Internacional, o Governo moçambicano prepara-se agora para um dos momentos económicos mais delicados desde a crise das “dívidas ocultas”: negociar um novo empréstimo com o FMI, aceitar a desvalorização do Metical e iniciar um processo de ajustamento económico que poderá redefinir o equilíbrio político e financeiro do país.

A mudança representa uma reviravolta dramática na posição que Maputo manteve até recentemente. Em Abril de 2025, Moçambique e o FMI suspenderam — embora sem cancelar formalmente — o programa de cooperação financeira, depois de o Governo resistir às principais exigências impostas pela instituição de Bretton Woods, sobretudo a desvalorização da moeda nacional e os cortes na massa salarial do Estado.

Durante meses, o impasse permaneceu total. Nas reuniões de Primavera do FMI, realizadas em Washington entre 13 e 18 de Abril deste ano, representantes da instituição deixaram claro que não haveria novas negociações enquanto Moçambique não demonstrasse disposição para cumprir as condições consideradas essenciais para restaurar o equilíbrio macroeconómico.

Mas em poucas semanas tudo mudou.

Primeiro, o Governo moçambicano surpreendeu os mercados ao liquidar integralmente uma dívida de cerca de 630 milhões de dólares junto do FMI, eliminando atrasos e regularizando a sua posição perante a instituição financeira internacional.

Depois, a 2 de Abril, Maputo contratou a consultora internacional de dívida soberana Alvarez & Marsal, numa decisão vista como um forte sinal político e financeiro. A escolha não passou despercebida: o director-geral da empresa, Reza Baqir, trabalhou durante duas décadas no FMI e chegou a liderar a divisão de política de dívida da organização.

Finalmente, Moçambique sinalizou ao FMI aquilo que durante anos evitou admitir publicamente: a aceitação de uma futura desvalorização do Metical.

As três decisões abriram caminho para um encontro considerado decisivo entre a delegação moçambicana e dirigentes do FMI em Washington. O resultado foi imediato: uma missão técnica da instituição financeira visitará Moçambique em Junho para iniciar negociações sobre um novo programa de financiamento.

Nos bastidores do poder, porém, a decisão está longe de ser consensual. A eventual desvalorização do Metical tornou-se um dos temas mais explosivos dentro da Frelimo.

Há cinco anos que a taxa de câmbio se mantém praticamente estável em cerca de 63,9 meticais por dólar, sustentada artificialmente pelo Banco Central através de intervenções no mercado cambial e uso de reservas internacionais.

Grande parte dos economistas considera, contudo, que a moeda nacional está profundamente sobrevalorizada. Em círculos financeiros, muitos defendem que a taxa real deveria situar-se entre 90 e 100 meticais por dólar.

Uma desvalorização desta magnitude teria efeitos imediatos e contraditórios. Por um lado, tornaria as importações drasticamente mais caras. Combustíveis, alimentos importados, medicamentos, equipamentos industriais e produtos de consumo sofreriam aumentos significativos de preços, agravando o custo de vida e pressionando ainda mais famílias urbanas já afectadas pela inflação e desemprego.

Por outro lado, sectores produtivos nacionais poderiam ganhar competitividade. Actualmente, devido ao Metical artificialmente forte, importar arroz asiático chega a ser mais barato do que produzir arroz em Gaza, Sofala ou Zambézia. Uma moeda mais fraca tornaria os produtos nacionais relativamente mais baratos, incentivando a agricultura, exportações e substituição de importações.

É precisamente aqui que o debate económico se transforma numa disputa política interna.

Importantes sectores ligados à elite económica da Frelimo controlam redes de importação altamente lucrativas, beneficiando directamente da manutenção de um Metical valorizado. Uma desvalorização reduziria margens de lucro desses grupos e alteraria profundamente o actual modelo económico baseado em importações.

Nos corredores do poder em Maputo, o receio é que o ajustamento económico abra fissuras políticas dentro do próprio partido governamental.

A discussão deixou de ser apenas “se” haverá desvalorização. A questão agora é “como” ela será feita: de uma só vez, num choque cambial abrupto, ou gradualmente, ao longo de vários anos.

Enquanto o debate prossegue, a economia real já sente os sinais da crise.

Empresas enfrentam a escassez crescente de dólares para importações. Bancos comerciais restringem acesso a divisas. Transferências internacionais atrasam-se. Sectores industriais reportam dificuldades na aquisição de matérias-primas e equipamentos.

No final de 2025, Moçambique acumulava cerca de 800 milhões de dólares em atrasos de pagamentos externos, situação que gerou forte pressão sobre o sistema financeiro nacional.

É precisamente neste ponto que surge outra polémica: o controverso pagamento antecipado da dívida ao FMI.

Segundo fontes financeiras, o próprio FMI não exigia o pagamento imediato dos 630 milhões de dólares. O dinheiro saiu directamente das reservas internacionais do Banco de Moçambique, numa decisão que, segundo relatos de bastidores, enfrentou resistência dentro do Banco Central.

Diversos banqueiros defendem que teria sido mais prudente utilizar essas reservas para reduzir os atrasos externos, aliviando a escassez de divisas na economia e permitindo maior circulação de dólares no mercado local.

Mas o Governo optou por outra estratégia: reconstruir credibilidade junto do FMI e garantir elegibilidade para futuras iniciativas internacionais de reestruturação da dívida.

Nos últimos meses, cresce internacionalmente a discussão sobre um novo mecanismo de perdão parcial da dívida para países pobres altamente endividados, semelhante ao programa HIPC implementado no início dos anos 2000.

Moçambique surge frequentemente citado entre os países potencialmente candidatos a um futuro processo global de alívio da dívida. Contudo, existe uma condição fundamental: os países beneficiários precisam manter regularizada a sua relação com o FMI.

Foi precisamente esse cálculo estratégico que levou sectores do Governo a defender o pagamento integral da dívida.

Há ainda outro argumento técnico considerado crucial: como a dívida ao FMI é denominada em dólares, qualquer desvalorização forte do Metical aumentaria automaticamente o peso da dívida em moeda nacional, agravando ainda mais as contas públicas.

O problema é que o espaço de manobra do país tornou-se extremamente reduzido.

A ajuda externa continua em queda. Parceiros internacionais reduziram apoio financeiro. O acesso a novos empréstimos em moeda forte praticamente desapareceu. Agências internacionais de notação financeira mantêm elevada desconfiança em relação à sustentabilidade da dívida moçambicana.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta múltiplas crises simultâneas.

No Norte, a insurgência armada em Cabo Delgado continua a provocar deslocamentos massivos, destruição de infra-estruturas e pressão humanitária. Mais de 1,3 milhões de pessoas já foram afectadas desde o início do conflito em 2017.

Em paralelo, ciclones sucessivos destruíram estradas, escolas, hospitais e sistemas agrícolas em várias províncias do Centro e Norte do país.

O Governo vai rever o Orçamento do Estado para incorporar cerca de 3,5 mil milhões de meticais provenientes das receitas do gás natural, destinados à reconstrução pós-cheias e recuperação de infra-estruturas danificadas pelas manifestações pós-eleitorais de 2024 e 2025.

Mas o peso das necessidades continua muito acima da capacidade financeira do Estado.

Paradoxalmente, tudo isto acontece enquanto Moçambique permanece sentado sobre algumas das maiores reservas de gás natural do planeta.

O país aposta fortemente nos megaprojectos liderados pela TotalEnergies, ExxonMobil e Eni como principal esperança para transformar a economia nas próximas décadas. No entanto, a prometida prosperidade do gás ainda não chegou à maioria da população.

Enquanto investidores internacionais aguardam estabilidade política e segurança em Cabo Delgado, o cidadão comum enfrenta aumento do custo de vida, desemprego crescente, salários pressionados e deterioração do poder de compra.

Para muitos economistas, Moçambique entrou agora numa fase decisiva: ou consegue atravessar os próximos anos com reformas económicas controladas até à entrada massiva das receitas do gás, ou poderá enfrentar uma nova crise financeira de grandes proporções.

A chegada da missão do FMI em Junho poderá marcar o início desse novo ciclo.

Mas também poderá abrir um período socialmente difícil, marcado por austeridade, pressão inflacionária, tensão cambial e disputas políticas internas sobre quem suportará os custos reais do ajustamento económico que se aproxima.




Governo contesta estimativa de prejuízos da TotalEnergies no projecto Mozambique LNG

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O Governo de Moçambique discorda da estimativa apresentada pela gigante francesa TotalEnergies segundo a qual os sucessivos atrasos no projecto Mozambique LNG terão provocado custos adicionais avaliados em cerca de dois mil milhões de dólares norte-americanos.

A divergência surge numa altura em que decorrem negociações entre o Executivo moçambicano e os parceiros do empreendimento para a aprovação de um plano de desenvolvimento actualizado do projecto de gás natural liquefeito, considerado um dos maiores investimentos energéticos do continente africano.

De acordo com informações divulgadas pela Bloomberg, uma auditoria recente conduzida pela consultora britânica Bayphase não conseguiu confirmar os custos alegadamente suportados pela TotalEnergies em consequência da paralisação prolongada das obras. Perante este cenário, Maputo mostra-se relutante em aceitar a estimativa de sobrecustos avançada pela petrolífera francesa.

O projecto Mozambique LNG, avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares, foi interrompido após a deterioração da situação de segurança na província de Cabo Delgado, particularmente nas proximidades da vila de Palma, onde grupos armados associados ao autoproclamado Estado Islâmico intensificaram ataques contra civis e infra-estruturas.

Em 2021, na sequência de violentos ataques registados nas imediações do local de implantação do projecto, a TotalEnergies declarou força maior e suspendeu todas as actividades de construção. Na altura, o empreendimento era apontado como o maior investimento estrangeiro realizado em África.

Após cerca de cinco anos de interrupção, a TotalEnergies anunciou, em Janeiro de 2026, o relançamento formal do projecto, depois de ter levantado, no final de 2025, a declaração de força maior que permanecia em vigor desde o agravamento da insegurança em Cabo Delgado.

Contudo, a retoma plena do projecto continua dependente do entendimento entre o Governo moçambicano e os investidores quanto aos custos acumulados durante o período de paralisação. As duas partes mantêm negociações para alcançar consenso sobre o novo plano de desenvolvimento e os mecanismos de financiamento dos encargos adicionais.

Os sucessivos atrasos já obrigaram à revisão do calendário de produção do projecto. Inicialmente prevista para 2024, a primeira exportação de gás natural liquefeito foi posteriormente adiada para 2027 e, mais tarde, para 2029.

O Mozambique LNG é considerado estratégico para a economia nacional, podendo transformar Moçambique num dos principais exportadores africanos de gás natural liquefeito e reforçar o abastecimento do mercado energético internacional nas próximas décadas.




Chapo felicita comunidade muçulmana e destaca papel do Islão na promoção da paz e unidade nacional

Presidente da República saúda a população do distrito de Cuamba à chegada para o início da visita de trabalho à província de Niassa no âmbito da Presidência Aberta Inclusiva1

O Presidente da República de Moçambique, Daniel Francisco Chapo, endereçou uma mensagem de felicitações à comunidade muçulmana, em particular aos moçambicanos, por ocasião da celebração do Eid Al-Ad’há, assinalada esta quarta-feira, 27 de Maio.

Na mensagem, o Chefe do Estado destacou o profundo significado espiritual da data, considerando-a uma ocasião propícia para o reforço da fraternidade, da convivência pacífica e da união entre os povos, bem como para a promoção de valores universais como a fé, a obediência, o sacrifício, a solidariedade e a entrega ao próximo.

Segundo o estadista, a comunidade muçulmana moçambicana tem desempenhado um papel relevante na consolidação do tecido social do país, através da promoção de princípios éticos e morais inspirados nos verdadeiros ensinamentos do Islão, assentes na paz, tolerância, compaixão, respeito mútuo e solidariedade humana.

Daniel Chapo sublinhou igualmente o contributo das comunidades islâmicas na promoção da harmonia social, no apoio às camadas mais vulneráveis e no fortalecimento da unidade nacional, num contexto em que o país continua a apostar na coesão social e no diálogo inter-religioso.

Na mesma mensagem, o Presidente reiterou o compromisso do Estado moçambicano com a liberdade religiosa e a cooperação entre as diferentes confissões religiosas, reconhecendo o papel destas instituições na educação moral, promoção da paz e formação da cidadania.

O Chefe do Estado concluiu desejando que “as bênçãos do Eid Al-Ad’há inspirem esperança, saúde, prosperidade e paz duradoura para todas as famílias moçambicanas”.




Presidente da República apela à vigilância contra boatos e anuncia obras estruturantes em Mecanhelas

Presidente da República orienta comício popular no distrito de Mecanhelas, no primeiro dia da visita de trabalho à província de Niassa2

O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, deu continuidade esta terça-feira à Presidência Aberta e Inclusiva na província do Niassa, com uma visita ao distrito de Mecanhelas, onde apelou à vigilância da população contra boatos, discursos de ódio e actos de violência que, segundo afirmou, ameaçam a paz e o desenvolvimento do país.

A deslocação insere-se no ciclo da Presidência Aberta e Inclusiva de 2026, no quadro da governação de proximidade, após a recente visita à província de Tete, com o objectivo de acompanhar directamente as dinâmicas de desenvolvimento económico e social.

Apelo à paz e combate à desinformação

No comício popular, o Chefe do Estado sublinhou a necessidade de reforçar a unidade nacional e rejeitar a violência, condenando igualmente a destruição de bens públicos registada em contextos pós-eleitorais.

Daniel Chapo alertou ainda para a propagação de boatos em algumas comunidades, sobretudo relacionados com alegados casos de desaparecimento ou atrofia dos órgãos genitais masculinos, apelando à responsabilidade colectiva.

“Não podemos matar o nosso irmão por causa de uma coisa que nunca aconteceu e nunca vai acontecer. É mentira, são boatos”, afirmou o Presidente, reforçando o apelo à vigilância e ao diálogo.

População destaca desafios e pede melhorias

Durante o encontro, a população de Mecanhelas saudou o modelo de governação aberta e inclusiva, reconhecendo os esforços do Executivo na promoção da paz e do diálogo nacional.

Contudo, foram apontadas preocupações persistentes nas áreas da saúde, educação e infra-estruturas, com destaque para a necessidade de reabilitação de estradas e melhoria do hospital distrital, de forma a reduzir a dependência de Cuamba e até do vizinho Malawi.

Os residentes apelaram ainda à melhoria da qualidade do ensino e ao reforço da humanização dos serviços de saúde.

Novas infra-estruturas e reforço de serviços

Em resposta, o Presidente da República anunciou o lançamento de concursos para a construção da estrada Mecanhelas–Cuamba e do Hospital Distrital de Mecanhelas, considerados projectos estruturantes para o desenvolvimento local.

Segundo o Chefe do Estado, o Ministro da Saúde deverá deslocar-se ao distrito ainda este ano para o lançamento da primeira pedra do hospital, enquanto o Ministro da Justiça deverá proceder ao lançamento da futura Conservatória de Registo e Notariado de Mecanhelas, no próximo sábado.

Foram igualmente entregues duas ambulâncias ao distrito, com o objectivo de reforçar o sistema de assistência médica e o transporte de pacientes.

Na vertente económica, Daniel Chapo defendeu o reforço do Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL) e apelou ao aumento da produção agrícola como resposta ao custo de vida, incentivando a produção de arroz, feijão, soja, gergelim e carne bovina.

O Presidente sublinhou que o desenvolvimento do país depende da capacidade de produção interna e da redução da dependência de importações, num contexto de instabilidade internacional.

Reafirmando o modelo de governação próxima das populações, o Chefe do Estado destacou que a presença do Executivo no terreno é essencial para ouvir directamente as preocupações dos cidadãos e acelerar soluções.

“Uma governação próxima do povo é sair de Maputo e vir ouvir as preocupações das populações”, afirmou.