Estamos perante uma crise de combustível ou crise geral do custo de vida?
Na minha modesta opinião, o aumento do preço de combustível está sendo encarado, desde o princípio, numa perspectiva destorcida. Deu-se a entender que o assunto ficaria resolvido subsidiando o transporte colectivo urbano de passageiros, como se o problema desta crise provocada pelo aumento do preço da gasolina e do gasóleo se circunscrevesse apenas no transporte das pessoas a nível das cidades. A sobrevivência da maioria das pessoas não depende apenas do seu transporte, depende de muitos outros factores que também ficam inflacionados com o aumento do preço dos combustíveis. Esta crise afecta também, por exemplo, o valor do frete do transporte de mercadorias que por sua vez vai fazer aumentar o preço do cabaz alimentar.
O preço dos produtos provenientes da agricultura, da pesca e da indústria é também afectado pela crise gerada pelos combustíveis, uma vez que são usados nestas actividades tractores, máquinas e geradores e tudo isto vai infernizar a vida dos cidadãos. Antes de um cidadão se preocupar em se deslocar de um lado para outro usando os transportes, tem de ter capacidade de comprar os produtos básicos para se alimentar. Com fome, ninguém consegue trabalhar, muito menos preocupar-se com o preço do transporte. Não restam dúvidas de que este aumento do preço dos combustíveis afecta directamente o transporte das pessoas e, se estas não conseguem ir trabalhar, tratar dos negócios ou da saúde, a vida dos cidadãos bem como a economia do país entram em rota de colisão.
Já não havia capacidade suficiente de pagar um transporte, cujo custo vinha sendo insuportável para a maioria das pessoas, uma vez que, para se chegar ao destino, paga-se 2 ou 3 bilhetes, fazendo ligações de transporte. Na situação actual de rotura do combustível e aumento do respectivo custo, fica ainda mais penoso para o cidadão sobreviver. Parecia que o Estado se tinha mostrado sensível ao problema, porém, pecou por apenas procurar subsidiar os transportadores urbanos de passageiros licenciados. Desta forma, pretendeu ignorar a realidade dos factos, uma vez que todos sabemos que grande parte dos transportes urbanos de passageiros é exercida pelos não licenciados, e por moto-táxis, situação que vem sendo tacitamente admitida dado ao facto de este mesmo Estado reconhecer a sua incapacidade de oferecer transporte suficiente ou de criar uma política nacional que permita que entidades particulares possam ocupar uma boa parte das responsabilidades do Governo de oferecer transporte. Este problema do agravamento dos preços das viagens nos transportes irá ciclicamente aparecendo na vida dos cidadãos enquanto o Estado continuar a interferir no custo do preço dos bilhetes dos passageiros praticado pelos privados. O Estado pode e deve continuar a oferecer preços sociais nos transportes públicos que disponibiliza aos seus cidadãos, mas deve deixar de interferir no custo das viagens cobradas pelos operadores de transporte particular, uma vez que o particular quer ver o seu negócio a ser rentável. A economia do mercado ou a livre concorrência entre os privados irá, certamente, estabelecer preços competitivos entre estes transpo rtadores e proporcionar assim custos das viagens cada vez mais baixos.
Cada Governo do nosso país que vai sendo nomeado não obedece a uma política nacional para os transportes, provavelmente por ainda não ter sido institucionalizada, razão pela qual cada um vai inventando tipos de transporte, por exemplo, por teleférico, por transporte eléctrico em carris, por barco ou por tractores agrícolas, provavelmente com base no que os nossos dirigentes observaram quando viajaram noutros países. O tipo de transporte para Moçambique tem de se coadunar com as nossas realidades e especificidades, tendo em conta a capacidade de gerir e de tornar sustentável qualquer que seja o projecto que se queira escolher. Na verdade, este é um dos problemas do nosso país que não é de fácil resolução para os nossos governantes que, ao longo dos anos, não encontram o rumo certo. Por esta razão, a solução pela qual optam, é sempre a mesma, a de adquirir novos autocarros para repor a frota danificada. Esta solução já se mostrou ineficaz porque 70 a 80% dos autocarros ficam rapidamente imobilizados nos parques ou nas oficinas. De nada serve ir fazendo aquisição de novos autocarros se não houver garantia de organizar o seguinte: Haver um fornecimento de stok de peças. Proporcionar um sistema eficaz de manutenção das viaturas. Oferecer uma formação avançada aos motoristas.
A falta de formação adequada é também a causa principal do desgaste prematuro das peças e da mecânica dos autocarros e é ainda a causa principal dos acidentes rodoviários no nosso País. Quando somos solicitados para ministrar este tipo de formação nas empresas de transportes, quer de passageiros, quer de cargas, constatamos que o nível de conhecimentos e das técnicas de condução dos motoristas está num patamar muito baixo. O pior é que os nossos dirigentes e até os gestores destas empresas particulares de transportes não têm a percepção de quão má é a qualidade de condutores que estão contratando. É necessário apostar numa formação especial/adicional aos motoristas, para que aprendam a saber fiscalizar os seus carros, a detectar antecipadamente eventuais avarias, conhecerem e familiarizarem-se com as características do carro que vão conduzir, saberem adoptar uma condução adequada às estradas degradadas do nosso país, saberem praticar condução económica, não só de combustível mas também dos componentes dos veículos que conduzem e, principalmente, praticar condução defensiva, para não se envolverem em sinistros rodoviários, face aos comportamentos desviantes dos utentes das nossas estradas. Basta só proporcionar uma formação de condução defensiva para se obter todos estes ganhos, mas continuo a não entender porque razão os nossos dirigentes não optam por proporcionar formações de segurança rodoviária. Por outro lado, custa-me também entender, por exemplo, porque motivo não optamos por complementar o transporte rodoviário pelo transporte ferroviário na região metropolitana de Maputo? Pode-se ligar, por exemplo, Maputo a Matola, Machava, Marraquene, etc por carreiras regulares de comboios. Nas situações de crise, referentes ao preço dos transportes, o problema poderia ser amenizado com esta alternativa de mobilidade proporcionada aos cidadãos. O país tem grande experiência no transporte por comboio, e os Caminhos de Ferro de Moçambique vêm gerindo esta actividade ao longo dos anos de forma sustentável e eficiente.
Perante a crise actual que o país está enfrentando nos transportes por causa do agravamento dos preços dos combustíveis, já ficou explícito que a solução de subsidiar somente os transportes colectivos urbanos de passageiros não foi acolhida satisfatoriamente, sendo urgente voltar a equacionar o problema com todos os parceiros. Torna-se imperioso voltar a dialogar novamente com todos os intervenientes no processo, com vista a encontrar uma saída que tenha consenso e seja compartilhado pela grande maioria. Está evidente que este problema não se resolve apenas subsidiando o transporte urbano de passageiros, uma vez que o mesmo abrange todos os outros sectores do país. O nosso Estado parece estar a perder o controlo desta situação e a prejudicar-se também, porque a economia de um país não se compadece com o estado actual da nação representado por crises como estas que estão sendo mal resolvidas em prejuízo de todos os moçambicanos.
Por: Cassamo Lalá – DIRETOR DA ESCOLA DE CONDUÇÃO INTERNACIONAL


