
Os desastres naturais causaram mais de 74 mil mortes em África, afectaram cerca de 64 milhões de pessoas e provocaram perdas económicas superiores a oito mil milhões de dólares norte-americanos durante o biénio 2023-2024. Os dados foram apresentados esta terça-feira, 13 de Outubro, pelo Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, durante a abertura da Conferência Internacional sobre a Redução do Risco de Desastres e Resiliência em África, realizada em Maputo, ocasião em que foi lançado o Quarto Relatório Bienal de África sobre a Redução do Risco de Desastres.
Segundo Chapo, o número de ocorrências de desastres no continente aumentou de 612 para 738 no período em análise, com as cheias, os ciclones tropicais e as secas a representarem cerca de 90% do total dos danos registados. Os números, apresentados no relatório bienal, evidenciam a dimensão dos riscos que continuam a ameaçar as populações, as infra-estruturas e os esforços de desenvolvimento dos países africanos.
Na sua intervenção, o Chefe do Estado afirmou que Moçambique se encontra entre os dez países do mundo mais afectados por desastres naturais, em consequência da sua localização geográfica e da exposição recorrente a ciclones, cheias, inundações, secas e tempestades.
“Estamos sempre a reconstruir”, declarou Chapo, referindo-se aos danos provocados pelos fenómenos naturais em estradas, pontes, escolas, hospitais, sistemas de abastecimento de água, redes de energia eléctrica e infra-estruturas de comunicação.
Para o Presidente da República, a redução do risco de desastres deve constituir uma prioridade estratégica, uma vez que a ausência de mecanismos eficazes de prevenção e resposta compromete os avanços económicos, sociais e ambientais e dificulta o cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
Mais de 1.500 comités locais na linha da frente
Ao abordar a experiência moçambicana na gestão de desastres, Daniel Chapo destacou o papel dos mais de 1.500 Comités Locais de Gestão de Risco de Calamidades, que actuam nas comunidades, sobretudo nas zonas ciclicamente afectadas por cheias, inundações e ciclones.
Segundo o estadista, estes comités constituem uma das principais estruturas de prevenção e resposta do país, através da divulgação de alertas em línguas locais, do uso de megafones e da mobilização das rádios comunitárias para informar as populações sobre os riscos e facilitar a retirada atempada das zonas ameaçadas.
“Estes é que são os verdadeiros campeões, estes é que são os heróis no salvamento de vidas do povo moçambicano”, afirmou, ao reconhecer o trabalho dos agentes comunitários que permanecem no terreno durante as emergências.
Chapo explicou que a redução dos impactos dos desastres depende da coordenação entre as instituições públicas e as comunidades, defendendo o reforço dos sistemas de aviso prévio, dos planos de prontidão e dos mecanismos de acção antecipada, resposta e recuperação.
O Presidente comparou a actuação destes comités à de um exército mobilizado em todo o território nacional, considerando que a sua presença permite alertar as populações antes da ocorrência dos fenómenos e reduzir a exposição directa aos perigos.
Cheias de 2026 provocaram menos vítimas do que as de 2000
Na comparação entre os impactos das cheias registadas em diferentes períodos, Daniel Chapo recordou as inundações de 1977 e de 2000, esta última responsável pela morte de mais de 700 pessoas.
O Chefe do Estado afirmou que as cheias registadas em 2026 tiveram uma magnitude superior à das ocorridas em 2000, mas provocaram menos de 200 mortes, resultado que atribuiu, em parte, à melhoria da capacidade de prevenção, alerta e mobilização das comunidades.
Apesar da redução do número de vítimas, Chapo lamentou as perdas humanas e afirmou que o objectivo deve continuar a ser evitar mortes em consequência de fenómenos naturais previsíveis.
O discurso presidencial destacou igualmente as cheias ocorridas entre Janeiro e Março deste ano, que provocaram perdas humanas e materiais, sobretudo nas regiões Sul e Centro do país.
O estadista recordou ainda os ciclones Idai, Kenneth, Fred e Chido, cujos efeitos se fizeram sentir em Moçambique e noutros países da região, incluindo Madagáscar, Malawi, Zimbabwe, Zâmbia e África do Sul.
Durante a cerimónia, o Presidente prestou homenagem às 139 vítimas do recente naufrágio ao largo do Djibuti e do acidente envolvendo a embarcação nacional CHAMBO, no lago Niassa, incluindo 15 crianças, conforme referido no seu discurso.
Financiamento climático e responsabilidade internacional
Daniel Chapo defendeu o reforço da cooperação internacional e do financiamento destinado à prevenção, mitigação e recuperação dos impactos dos desastres naturais, considerando insuficientes e tardios os apoios prometidos pelos parceiros internacionais.
Segundo o Presidente, a demora na disponibilização dos recursos financeiros compromete os esforços de reconstrução e agrava as dificuldades enfrentadas pelos países africanos, muitos dos quais dispõem de recursos limitados para responder a emergências de grande dimensão.
O Chefe do Estado sublinhou que Moçambique contribui de forma reduzida para a poluição global, mas continua a suportar impactos severos das alterações climáticas, devido à sua localização geográfica e à exposição a fenómenos meteorológicos extremos.
O país é atravessado por nove bacias hidrográficas, uma característica que, associada à sua exposição costeira e às condições climáticas, aumenta a vulnerabilidade a cheias e ciclones.
Neste sentido, Chapo considerou a justiça climática uma questão central para o continente africano e para a comunidade internacional, defendendo que os compromissos financeiros devem traduzir-se em medidas concretas de protecção das populações e das infra-estruturas.
O Presidente apelou aos governos, parceiros de desenvolvimento e demais actores para que reforcem o compromisso colectivo com a redução do risco de desastres e a concretização da Agenda 2063 da União Africana.
África chamada a passar do diálogo à acção
A Conferência Internacional sobre a Redução do Risco de Desastres e Resiliência em África decorre ao longo de três dias, em Maputo, reunindo representantes de governos, da União Africana, da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), das Nações Unidas, do Banco Mundial, da União Europeia e de organizações da sociedade civil, entre outros participantes.
O encontro visa promover a partilha de experiências e a construção de soluções para melhorar a prevenção, a prontidão e a resposta aos desastres no continente.
Na ocasião, foi lançado o Quarto Relatório Bienal de África sobre a Implementação do Programa de Acção do Quadro de Sendai para a Redução do Risco de Desastres, referente ao período 2023-2024.
Chapo defendeu que os resultados da conferência devem ultrapassar as declarações políticas e traduzir-se em medidas práticas, com destaque para a modernização dos sistemas de aviso prévio, o investimento em infra-estruturas resilientes e a capacitação das comunidades.
O Presidente da República apelou ainda à continuidade do debate sobre o financiamento climático e a justiça climática, insistindo na necessidade de uma resposta internacional proporcional à dimensão dos riscos enfrentados pelos países africanos.
“A resiliência começa nas nossas comunidades”, afirmou, defendendo que as populações locais devem ocupar uma posição central nas estratégias de prevenção e redução dos impactos dos desastres naturais.
A conferência foi aberta no Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres, assinalado a 13 de Outubro sob o lema “A Resiliência Começa em Casa”.







